Conto
O IMPREVISTO (parte 6)
Infelizmente, atenuar os excessos de uma actividade profissional só por si não basta, é preciso também alterar o nosso comportamento relativamente a tudo o que nos rodeia. Vejam o meu caso pessoal. Eu tenho a mania que sou melhor do que os outros, mais esperto e mais conhecedor. É uma parvoíce, mas é verdade. Este complexo de superioridade nunca me trouxe qualquer vantagem. Pelo contrário, tudo o que consegui foi através de intenso trabalho, auto aprendizagem permanente e bom senso, carradas de bom senso. Então, para quê a pretensa superioridade, se não me posso basear nela para ter sucesso?
O que eu tenho de fazer é contemporizar, ser mais humano. Excelente intenção, não acham? Lembram-se do que eu disse dos taxistas? Muito sinceramente, para mim, os taxistas sempre foram uns grandes maçadores, e os seus bons carros pura e simplesmente não chegam para o disfarçar. Estão a ver, portanto, o esforço assinalável que eu já estou a fazer para aceitar melhor o que me rodeia.
Decidi percorrer aquele espaço imenso, talvez à procura de alguma coisa e apercebi-me que ia encontrando bastante animação nalgumas salas. Numa delas, uma juke-box enchia o ar, noutra mais adiante as pessoas estavam entretidas a fazer karaoke. Sem me sentar, mantive-me atento a esta última e apreciei a facilidade e qualidade com que eram interpretadas canções de todos os géneros. A aparelhagem sofisticada fazia acreditar com demasiada evidência que estariam ali artistas com futuro mais do que garantido. Fui avançando.
Mesmo à minha frente, um grande telão passava uma daquelas gravações de provas desportivas. Reconheci que estavam a transmitir atletismo, focando os preparativos da final de uma prova de cento e dez metros barreiras. Eu já fui um pequeno atleta desta especialidade, nas idades mais jovens, quando as barreiras são muito mais baixas e só percorremos sessenta metros. Tudo está em proporção, especialmente a capacidade atlética, bem entendido. Mesmo assim, lembro-me que treinei um ano inteirinho, o que me permite ter uma ideia do que se estava a passar na pista. A primeira barreira é a mais importante, pode ser mesmo decisiva. Claro que todas as outras barreiras são importantes, mas a primeira tem dado cabo de alguns campeões. É imprescindível que o ataque a esse primeiro obstáculo seja concretizado com velocidade, equilíbrio e poder suficientes para tornar possível um resto de corrida rápido e sincronizado. Sempre, mas sempre, com três passadas exactas entre cada barreira e a seguinte. Olhando para os atletas finalistas, podia quase adivinhar o que estavam a pensar: antecipavam mentalmente essa parte inicial da corrida, acreditando que depois, já lançados, poderiam dar tudo por tudo. Para além das capacidades inatas e do treino, teriam maiores hipóteses os que fossem mais confiantes e corajosos. Sim, porque esta é uma prova violenta, psicologicamente muito violenta. E, no entanto, a prova rainha, a mais aguardada, a mais falada, a mais importante, é sempre a dos cem metros planos, o teste máximo à velocidade pura. Isto sempre me deu muito que pensar!
quarta-feira, agosto 02, 2006
sexta-feira, julho 28, 2006
Conto
O IMPREVISTO (parte 5)
- Françoise, não leves a mal, mas ainda não sei. Penso que ainda não levei este lugar devidamente a sério. Mas, verdadeiramente, ainda nem sei o que estou aqui a fazer – olhei em volta, um pouco perplexo, talvez à espera de ouvir alguém dizer qualquer coisa brilhante.
- Spoon, vá lá não estejas só para aí a ouvir, esconde esse teu sorriso irónico e dá a tua opinião – Françoise, como uma verdadeira moderadora, tinha-se virado para um inglês que fazia parte do grupo.
Spoon, era uma figura típica mas relativamente insondável que gostava de observar tudo e todos. Já o tinha visto antes. Era um tipo que raramente falava mas que quando o fazia dava sempre a impressão de dizer sempre qualquer coisa de indiscutível.
- Falar em descobrir objectivos dentro de nós, sim, pode ser o segredo, pode ser – Spoon falava devagar. Depois, o seu olhar vagueou em círculo dirigindo-se a todos nós – Parece ser o que há de mais fácil no mundo e, no entanto, acho que nunca consegui penetrar o suficiente em mim próprio para poder descobrir o que raio pretendo fazer a seguir. Nas situações decisivas, eu temo que sejam as circunstâncias a empurrar-nos e a colocar-nos perante escolhas a que não podemos fugir. Depois deste pequeno discurso, Spoon pareceu ter cumprido o seu dever e remeteu-se de novo à sua quietude habitual.
Sorrindo para os presentes, peguei no meu cocktail e bebi um pouco, devagar. Depois levantei-me, lentamente, e fui andando até à sala seguinte. De pé, com o copo na mão, avaliei a situação.
Desde aquele incidente no aeroporto, eu sentira a possibilidade vaga de me estar a acontecer alguma coisa. Sim, as circunstâncias podem ter um papel decisivo. Dir-me-ão que seria uma boa altura para ter ficado no hotel a ler um bom livro ou que teria sido interessante assistir a um espectáculo teatral, por exemplo. E não deixam de ter razão, é claro. Mas alguma coisa me fez acreditar que era altura de pensar noutras coisas e, pouco a pouco, dei uns passos mais ousados. Pelos vistos, devia estar a sufocar.
Mas, atenção, eu sei que a vida não muda com um estalar de dedos. Só que me sentia exausto e o trabalho que fazia estava a tornar-se um fardo difícil de aguentar. Com efeito, A minha rotina diária era assustadoramente dura e tudo o que antes me parecera tão interessante e até entusiasmante, se tornava agora pesado e violento. Além disso, já ganhei mais do que o suficiente para ter uma boa vida, até com algum luxo.
O IMPREVISTO (parte 5)
- Françoise, não leves a mal, mas ainda não sei. Penso que ainda não levei este lugar devidamente a sério. Mas, verdadeiramente, ainda nem sei o que estou aqui a fazer – olhei em volta, um pouco perplexo, talvez à espera de ouvir alguém dizer qualquer coisa brilhante.
- Spoon, vá lá não estejas só para aí a ouvir, esconde esse teu sorriso irónico e dá a tua opinião – Françoise, como uma verdadeira moderadora, tinha-se virado para um inglês que fazia parte do grupo.
Spoon, era uma figura típica mas relativamente insondável que gostava de observar tudo e todos. Já o tinha visto antes. Era um tipo que raramente falava mas que quando o fazia dava sempre a impressão de dizer sempre qualquer coisa de indiscutível.
- Falar em descobrir objectivos dentro de nós, sim, pode ser o segredo, pode ser – Spoon falava devagar. Depois, o seu olhar vagueou em círculo dirigindo-se a todos nós – Parece ser o que há de mais fácil no mundo e, no entanto, acho que nunca consegui penetrar o suficiente em mim próprio para poder descobrir o que raio pretendo fazer a seguir. Nas situações decisivas, eu temo que sejam as circunstâncias a empurrar-nos e a colocar-nos perante escolhas a que não podemos fugir. Depois deste pequeno discurso, Spoon pareceu ter cumprido o seu dever e remeteu-se de novo à sua quietude habitual.
Sorrindo para os presentes, peguei no meu cocktail e bebi um pouco, devagar. Depois levantei-me, lentamente, e fui andando até à sala seguinte. De pé, com o copo na mão, avaliei a situação.
Desde aquele incidente no aeroporto, eu sentira a possibilidade vaga de me estar a acontecer alguma coisa. Sim, as circunstâncias podem ter um papel decisivo. Dir-me-ão que seria uma boa altura para ter ficado no hotel a ler um bom livro ou que teria sido interessante assistir a um espectáculo teatral, por exemplo. E não deixam de ter razão, é claro. Mas alguma coisa me fez acreditar que era altura de pensar noutras coisas e, pouco a pouco, dei uns passos mais ousados. Pelos vistos, devia estar a sufocar.
Mas, atenção, eu sei que a vida não muda com um estalar de dedos. Só que me sentia exausto e o trabalho que fazia estava a tornar-se um fardo difícil de aguentar. Com efeito, A minha rotina diária era assustadoramente dura e tudo o que antes me parecera tão interessante e até entusiasmante, se tornava agora pesado e violento. Além disso, já ganhei mais do que o suficiente para ter uma boa vida, até com algum luxo.
Conto
O IMPREVISTO (parte 4)
A princípio ela nem reparou, como sempre absorta numa conversa que decerto a interessava.
Quando finalmente me viu de pé, muito próximo do sofá em que se sentava, olhou para mim de modo interrogativo, mas logo a sua cara se começou a abrir num sorriso largo e virou toda a sua atenção para mim.
- Dino, há quanto tempo! Mas junta-te a nós, toma parte nesta discussão que está mesmo a aquecer – enquanto falava, Françoise abraçou-me e ajeitou-se para me conseguir uma nesga de sofá onde me sentei.
É estranho, mas vejo agora que ainda não me apresentei!
Já repararam que referi a minha profissão, mas nem me lembrei de dizer quem sou. Pura distracção, acreditem, e aceitem as minhas desculpas. De qualquer modo, nada acontece por acaso. Não fiz de propósito, mas o tema do trabalho é daqueles a que não se consegue fugir. Regra geral, não é por ser um assunto assim tão apaixonante, é antes por assumir a natureza de uma quase obsessão pois, não nos esqueçamos, trabalhamos para “ganhar a vida”. Mesmo se, em grande parte dos casos, ainda por cima gostamos do que andamos a fazer.
Mas vamos então ao que importa. O meu nome é Alexandrino Marques de Sousel, tenho 39 anos e ainda comecei a estudar um pouco de finanças internacionais mas não tive incentivo para a terminar pelo que fiquei, decepcionado e farto, no meio do segundo ano do curso. Fui casado, mas quem é que aguenta a vida de um especulador como eu? O problema é que houve uma altura na minha vida em que estava mais apaixonado pelo trabalho do que por qualquer outra coisa ou, principalmente, pessoa. Como não lhes deve ter escapado, o meu nome próprio é um bocado caricato e, bem, é mesmo perfeitamente horrível. Para corrigir um pouco esse facto, nos locais onde sou mais conhecido, arranjaram-me diversos diminutivos, com mais ou menos bom gosto. É curioso que, para além de obviamente não podermos ser ouvidos em relação ao nosso próprio nome, também raramente nos consultam sobre as alcunhas que nos inventam. Aqui no “Le Musicien” sou o Dino.
Entretanto, na minha ponta de sofá ao pé da Françoise, mostrei-me interessado e bom ouvinte, disponível para dar a minha opinião sobre o assunto que ficara em suspenso.
- O assunto é o seguinte, Dino: todos nós queremos fazer coisas diferentes, é mesmo para isso que aqui estamos. Vimos cá ao “Le Musicien”, descontraímos um bom bocado, apreciamos este ambiente prodigioso, conversamos, mas o nosso verdadeiro objectivo é tentar descobrir um rumo – Françoise respirou fundo e continuou – Mesmo sendo este bar um lugar fora do comum, o mais certo é não encontramos aqui o que procuramos. Porque muitas vezes nem sabemos o que é! Será que conseguiremos olhar bem para dentro de nós e perceber o que se passa?
O IMPREVISTO (parte 4)
A princípio ela nem reparou, como sempre absorta numa conversa que decerto a interessava.
Quando finalmente me viu de pé, muito próximo do sofá em que se sentava, olhou para mim de modo interrogativo, mas logo a sua cara se começou a abrir num sorriso largo e virou toda a sua atenção para mim.
- Dino, há quanto tempo! Mas junta-te a nós, toma parte nesta discussão que está mesmo a aquecer – enquanto falava, Françoise abraçou-me e ajeitou-se para me conseguir uma nesga de sofá onde me sentei.
É estranho, mas vejo agora que ainda não me apresentei!
Já repararam que referi a minha profissão, mas nem me lembrei de dizer quem sou. Pura distracção, acreditem, e aceitem as minhas desculpas. De qualquer modo, nada acontece por acaso. Não fiz de propósito, mas o tema do trabalho é daqueles a que não se consegue fugir. Regra geral, não é por ser um assunto assim tão apaixonante, é antes por assumir a natureza de uma quase obsessão pois, não nos esqueçamos, trabalhamos para “ganhar a vida”. Mesmo se, em grande parte dos casos, ainda por cima gostamos do que andamos a fazer.
Mas vamos então ao que importa. O meu nome é Alexandrino Marques de Sousel, tenho 39 anos e ainda comecei a estudar um pouco de finanças internacionais mas não tive incentivo para a terminar pelo que fiquei, decepcionado e farto, no meio do segundo ano do curso. Fui casado, mas quem é que aguenta a vida de um especulador como eu? O problema é que houve uma altura na minha vida em que estava mais apaixonado pelo trabalho do que por qualquer outra coisa ou, principalmente, pessoa. Como não lhes deve ter escapado, o meu nome próprio é um bocado caricato e, bem, é mesmo perfeitamente horrível. Para corrigir um pouco esse facto, nos locais onde sou mais conhecido, arranjaram-me diversos diminutivos, com mais ou menos bom gosto. É curioso que, para além de obviamente não podermos ser ouvidos em relação ao nosso próprio nome, também raramente nos consultam sobre as alcunhas que nos inventam. Aqui no “Le Musicien” sou o Dino.
Entretanto, na minha ponta de sofá ao pé da Françoise, mostrei-me interessado e bom ouvinte, disponível para dar a minha opinião sobre o assunto que ficara em suspenso.
- O assunto é o seguinte, Dino: todos nós queremos fazer coisas diferentes, é mesmo para isso que aqui estamos. Vimos cá ao “Le Musicien”, descontraímos um bom bocado, apreciamos este ambiente prodigioso, conversamos, mas o nosso verdadeiro objectivo é tentar descobrir um rumo – Françoise respirou fundo e continuou – Mesmo sendo este bar um lugar fora do comum, o mais certo é não encontramos aqui o que procuramos. Porque muitas vezes nem sabemos o que é! Será que conseguiremos olhar bem para dentro de nós e perceber o que se passa?
quarta-feira, julho 26, 2006
Conto
O IMPREVISTO (parte 3)
“… She feels so sad…” Ainda acariciado por aquele tema e enquanto esperava por uma omeleta de ervas, ponderei o aperitivo sob o olhar atento e apurado do Albert. Decidi-me por um cocktail de champagne, que mereceu um olhar lisonjeiro, quase triunfante, do meu anfitrião, posso certamente chamá-lo assim. Albert abriu uma garrafa do melhor champagne, serviu uma boa quantidade, juntou gelo picado, uma judiciosa porção de curaçau e um cheiro de duas ou três secretas especiarias. A rapidez de execução, que era fantástica, não deixava de ser absolutamente natural e o sabor da bebida, embora transcendente, era tudo o que se poderia esperar. Ia ser a minha companhia para o resto da noite.
- “A sua amiga Françoise está na sala ao lado”.
Com toda a discrição e de passagem, enquanto servia outros clientes, Albert teve tempo de me dizer isto e tenho a certeza que só eu ouvi as suas palavras.
- “Veio sozinha?” - consegui perguntar entre duas garfadas.
- “Como sempre, claro” – respondeu e logo desapareceu no outro lado do bar.
Françoise era uma velha conhecida, uma francesa que ainda não atingira a casa dos quarenta, tal como eu. Faladora nata, os seus olhos escuros e magnéticos vibravam ao mais pequeno estímulo. Mais baixa do que alta e um pouco roliça, a sua vivacidade sempre me cativara.
Enquanto mastigava o resto da minha deliciosa omoleta lembrei-me que nada sabia da vida dela, nem ela da minha. Ou melhor, nenhum de nós alguma vez teve o mais pequeno interesse em falar dessas trivialidades.
Iria lá daí a pouco, era só tomar um café. Bom, um café no “Le Musicien” era uma genuína profusão de prazeres. Era vantajosa uma ligeira preparação, talvez mesmo uma certa concentração. Ora observem.
- Robusta da Etiópia com arábica da Costa Rica, em partes iguais? – a intensidade da pergunta era tal, que o olhar do Albert quase fazia parecer que a sua vida dependia da minha resposta.
Acenei afirmativamente, de forma lenta, como um apreciador.
- Com uma pitada de canela e um ligeiríssimo toque de sal? – a mesma expectativa de Albert pela minha reacção.
Concordei rendido, o cérebro alheado na lembrança de sabores já experimentados.
Depois de ter bebido, lentamente e de olhos semi-cerrados, aquela mistura de gosto inigualável, estava preparado para continuar.
O IMPREVISTO (parte 3)
“… She feels so sad…” Ainda acariciado por aquele tema e enquanto esperava por uma omeleta de ervas, ponderei o aperitivo sob o olhar atento e apurado do Albert. Decidi-me por um cocktail de champagne, que mereceu um olhar lisonjeiro, quase triunfante, do meu anfitrião, posso certamente chamá-lo assim. Albert abriu uma garrafa do melhor champagne, serviu uma boa quantidade, juntou gelo picado, uma judiciosa porção de curaçau e um cheiro de duas ou três secretas especiarias. A rapidez de execução, que era fantástica, não deixava de ser absolutamente natural e o sabor da bebida, embora transcendente, era tudo o que se poderia esperar. Ia ser a minha companhia para o resto da noite.
- “A sua amiga Françoise está na sala ao lado”.
Com toda a discrição e de passagem, enquanto servia outros clientes, Albert teve tempo de me dizer isto e tenho a certeza que só eu ouvi as suas palavras.
- “Veio sozinha?” - consegui perguntar entre duas garfadas.
- “Como sempre, claro” – respondeu e logo desapareceu no outro lado do bar.
Françoise era uma velha conhecida, uma francesa que ainda não atingira a casa dos quarenta, tal como eu. Faladora nata, os seus olhos escuros e magnéticos vibravam ao mais pequeno estímulo. Mais baixa do que alta e um pouco roliça, a sua vivacidade sempre me cativara.
Enquanto mastigava o resto da minha deliciosa omoleta lembrei-me que nada sabia da vida dela, nem ela da minha. Ou melhor, nenhum de nós alguma vez teve o mais pequeno interesse em falar dessas trivialidades.
Iria lá daí a pouco, era só tomar um café. Bom, um café no “Le Musicien” era uma genuína profusão de prazeres. Era vantajosa uma ligeira preparação, talvez mesmo uma certa concentração. Ora observem.
- Robusta da Etiópia com arábica da Costa Rica, em partes iguais? – a intensidade da pergunta era tal, que o olhar do Albert quase fazia parecer que a sua vida dependia da minha resposta.
Acenei afirmativamente, de forma lenta, como um apreciador.
- Com uma pitada de canela e um ligeiríssimo toque de sal? – a mesma expectativa de Albert pela minha reacção.
Concordei rendido, o cérebro alheado na lembrança de sabores já experimentados.
Depois de ter bebido, lentamente e de olhos semi-cerrados, aquela mistura de gosto inigualável, estava preparado para continuar.
terça-feira, julho 25, 2006
Conto
O IMPREVISTO (parte 2)
Sinto-me sempre diferente em Paris. Fico mais sereno, aberto a novas sensações, a pequenas coisas que não saberia definir. Naquele dia, hesitava sobre o que fazer, ia ponderando a questão enquanto o táxi seguia lesto até aos Champs Elysées, depois diria o destino exacto. Tinha, pois, algum tempo para me decidir.
A pouco e pouco, começou a ficar claro para mim que iria escolher a evasão, evitando qualquer semelhança com a chamada vida real, prática e exigente, desgastante e violenta. Pelo menos, a minha vida é assim!
Iria deliberadamente ao encontro da novidade e da imaginação. Lembram-se daquelas cenas de filmes em que o nevoeiro parece dominar tudo e, ao distorcer a realidade, dá um adequado toque de mistério? Pois é disso que eu preciso esta noite. Preciso de caminhar por ruas que parecem não existir, ir a locais onde se entrechocam pessoas que normalmente não se conhecem. Juntar-me a um ambiente quente, cheio de enigmas e de aventura onde cada um pode fazer o que bem entender, abrindo-se-lhe um mundo de novas experiências.
Uma atmosfera quase irreal, mas tão verdadeira que se sente até aos ossos.
Já dei a indicação ao taxista, é que eu conheço exactamente um lugar assim. Chama-se “Le Musicien d´Honneur” e não ia lá há bastante tempo, tanto que me parecia uma eternidade.
Saí do táxi embrulhado na neblina e em frente da grande porta de madeira levemente iluminada toquei à campainha.
Fui logo atendido por um empregado que me abriu caminho através de um corredor, cheio de quadros de músicos de jazz nas paredes. Um canto sincopado e um ruído abafado, de vozes e copos, guiavam-me com segurança. Entrei num salão confortável, cheio de recantos, cada um deles parecendo criar uma sala autónoma. Havia um espaço aberto lá mais ao fundo, onde a voz que eu tinha ouvido ainda entoava “Lady sings the blues”, numa interpretação muito intimista.
Em lugar de destaque, o bar, convidativo e abundante, para onde me dirigi sem demora. Ao sentar-me, apreciando este lugar que descobrira há tantos anos, o meu corpo lembrou-me que ainda não tinha jantado. E foi esse problema que pedi ao barman principal, o já meu conhecido Albert, para resolver da melhor forma que entendesse.
O IMPREVISTO (parte 2)
Sinto-me sempre diferente em Paris. Fico mais sereno, aberto a novas sensações, a pequenas coisas que não saberia definir. Naquele dia, hesitava sobre o que fazer, ia ponderando a questão enquanto o táxi seguia lesto até aos Champs Elysées, depois diria o destino exacto. Tinha, pois, algum tempo para me decidir.
A pouco e pouco, começou a ficar claro para mim que iria escolher a evasão, evitando qualquer semelhança com a chamada vida real, prática e exigente, desgastante e violenta. Pelo menos, a minha vida é assim!
Iria deliberadamente ao encontro da novidade e da imaginação. Lembram-se daquelas cenas de filmes em que o nevoeiro parece dominar tudo e, ao distorcer a realidade, dá um adequado toque de mistério? Pois é disso que eu preciso esta noite. Preciso de caminhar por ruas que parecem não existir, ir a locais onde se entrechocam pessoas que normalmente não se conhecem. Juntar-me a um ambiente quente, cheio de enigmas e de aventura onde cada um pode fazer o que bem entender, abrindo-se-lhe um mundo de novas experiências.
Uma atmosfera quase irreal, mas tão verdadeira que se sente até aos ossos.
Já dei a indicação ao taxista, é que eu conheço exactamente um lugar assim. Chama-se “Le Musicien d´Honneur” e não ia lá há bastante tempo, tanto que me parecia uma eternidade.
Saí do táxi embrulhado na neblina e em frente da grande porta de madeira levemente iluminada toquei à campainha.
Fui logo atendido por um empregado que me abriu caminho através de um corredor, cheio de quadros de músicos de jazz nas paredes. Um canto sincopado e um ruído abafado, de vozes e copos, guiavam-me com segurança. Entrei num salão confortável, cheio de recantos, cada um deles parecendo criar uma sala autónoma. Havia um espaço aberto lá mais ao fundo, onde a voz que eu tinha ouvido ainda entoava “Lady sings the blues”, numa interpretação muito intimista.
Em lugar de destaque, o bar, convidativo e abundante, para onde me dirigi sem demora. Ao sentar-me, apreciando este lugar que descobrira há tantos anos, o meu corpo lembrou-me que ainda não tinha jantado. E foi esse problema que pedi ao barman principal, o já meu conhecido Albert, para resolver da melhor forma que entendesse.
Conto
O IMPREVISTO (parte 1)
Mal chegara a Paris e já tinha perdido o avião de ligação para Lisboa. Vinha de Bucareste e sabia que dispunha de quase duas horas no aeroporto Charles de Gaulle para efectuar a mudança de voos. Mas ainda na capital romena, em plena pista, quando todos os passageiros enchiam já o avião, a porta de entrada próxima da cabine de pilotagem recusou-se obstinadamente a fechar. A equipa de manutenção do aeroporto trabalhou arduamente e, assim, o nosso avião fretado pôde finalmente levantar voo, mas sem nunca recuperar a hora e meia que tinha perdido.
Penso que nunca me tinha acontecido nada parecido. Em relação a uma porta de avião, quero dizer. Não é uma coisa muito grave, mas tem realmente mais probabilidade de acontecer com um avião velho e mal cuidado de uma companhia em vias de falência, como era o caso. Mas, sem sombra de dúvida, os meus planos modificaram-se completamente por causa desse percalço.
E ali estava eu, ao fim da tarde de um dia de Outubro, com guia de marcha para um bom hotel na vizinhança do aeroporto e com direito a senha de jantar e tudo. Mas isso poderia esperar, lá iria eventualmente mais tarde, muito mais tarde. Não é todos os dias que temos Paris tão à mão, enganadoramente passiva mas sempre tão atractiva. Nada estava planeado mas as surpresas acontecem mais facilmente quando são provocadas.
Fiquem a saber, pois não quero fazer segredo, que sou um negociante de metais, um verdadeiro especialista na especulação. Ouro, platina, paládio, prata, estanho e alguns outros mais raros. Tanto faz. É uma profissão estranha, eu sei, faz desconfiar que sou na realidade um malfeitor de grande calibre. Mas não, o que eu faço, muito simplesmente, é comprar e vender metais, de cuja actividade retiro merecidos lucros, sempre que tenho o engenho necessário.
Mas o que vos pretendo contar nada tem a ver com os referidos metais. Que, para mim, são trabalho e, numa altura como esta, quero evitar o assunto. Com efeito, estou a passar por uma fase de saturação de tudo isso e, assim, quero agarrar este inesperado ensejo de desfrutar Paris.
Preciso de arranjar um táxi. Uma coisa boa relativamente aos táxis é a extraordinária liberdade de movimentos que permitem. Tendo o dinheiro necessário, levam-nos rapidamente onde precisamos, sem preocupações com o trânsito ou com o lugar para arrumar. E deixem-me que vos diga, o interior dos veículos tem um ambiente cada vez mais profissional e eficiente. Nada de música estridente e conversa à toa, pelo contrário, antes se nota logo o moderno computador de trânsito, a música de fundo suave e o pagamento possível por qualquer cartão com circulação mundial.
Mas, continuemos. O percurso não teve grande história, se exceptuarmos a aproximação normal a uma cidade a que já fomos inúmeras vezes e onde queremos sempre voltar. Desse modo, o olhar é já pouco turístico, começa a ser menos importante a sucessiva passagem por monumentos únicos que, em qualquer caso, admitimos que só poderiam estar ali. E o que queremos mesmo é penetrar no coração da cidade.
Também não tenho a intenção de descrever qualquer tipo de viagem guiada a Paris que, para mim, tem uma dimensão humana incomparável. Um ambiente nostálgico inexprimível, que é sempre melhor viver do que relatar.
O IMPREVISTO (parte 1)
Mal chegara a Paris e já tinha perdido o avião de ligação para Lisboa. Vinha de Bucareste e sabia que dispunha de quase duas horas no aeroporto Charles de Gaulle para efectuar a mudança de voos. Mas ainda na capital romena, em plena pista, quando todos os passageiros enchiam já o avião, a porta de entrada próxima da cabine de pilotagem recusou-se obstinadamente a fechar. A equipa de manutenção do aeroporto trabalhou arduamente e, assim, o nosso avião fretado pôde finalmente levantar voo, mas sem nunca recuperar a hora e meia que tinha perdido.
Penso que nunca me tinha acontecido nada parecido. Em relação a uma porta de avião, quero dizer. Não é uma coisa muito grave, mas tem realmente mais probabilidade de acontecer com um avião velho e mal cuidado de uma companhia em vias de falência, como era o caso. Mas, sem sombra de dúvida, os meus planos modificaram-se completamente por causa desse percalço.
E ali estava eu, ao fim da tarde de um dia de Outubro, com guia de marcha para um bom hotel na vizinhança do aeroporto e com direito a senha de jantar e tudo. Mas isso poderia esperar, lá iria eventualmente mais tarde, muito mais tarde. Não é todos os dias que temos Paris tão à mão, enganadoramente passiva mas sempre tão atractiva. Nada estava planeado mas as surpresas acontecem mais facilmente quando são provocadas.
Fiquem a saber, pois não quero fazer segredo, que sou um negociante de metais, um verdadeiro especialista na especulação. Ouro, platina, paládio, prata, estanho e alguns outros mais raros. Tanto faz. É uma profissão estranha, eu sei, faz desconfiar que sou na realidade um malfeitor de grande calibre. Mas não, o que eu faço, muito simplesmente, é comprar e vender metais, de cuja actividade retiro merecidos lucros, sempre que tenho o engenho necessário.
Mas o que vos pretendo contar nada tem a ver com os referidos metais. Que, para mim, são trabalho e, numa altura como esta, quero evitar o assunto. Com efeito, estou a passar por uma fase de saturação de tudo isso e, assim, quero agarrar este inesperado ensejo de desfrutar Paris.
Preciso de arranjar um táxi. Uma coisa boa relativamente aos táxis é a extraordinária liberdade de movimentos que permitem. Tendo o dinheiro necessário, levam-nos rapidamente onde precisamos, sem preocupações com o trânsito ou com o lugar para arrumar. E deixem-me que vos diga, o interior dos veículos tem um ambiente cada vez mais profissional e eficiente. Nada de música estridente e conversa à toa, pelo contrário, antes se nota logo o moderno computador de trânsito, a música de fundo suave e o pagamento possível por qualquer cartão com circulação mundial.
Mas, continuemos. O percurso não teve grande história, se exceptuarmos a aproximação normal a uma cidade a que já fomos inúmeras vezes e onde queremos sempre voltar. Desse modo, o olhar é já pouco turístico, começa a ser menos importante a sucessiva passagem por monumentos únicos que, em qualquer caso, admitimos que só poderiam estar ali. E o que queremos mesmo é penetrar no coração da cidade.
Também não tenho a intenção de descrever qualquer tipo de viagem guiada a Paris que, para mim, tem uma dimensão humana incomparável. Um ambiente nostálgico inexprimível, que é sempre melhor viver do que relatar.
domingo, julho 23, 2006
O espantoso caso do preço das acções da Google
Longe vão os tempos em que as empresas da Internet eram analisadas “de outra maneira”, através de planos de negócios literalmente virtuais onde quase só existiam potencialidades. Não admira que as cotações estratosféricas de muitas delas, em determinada altura, tenham caído no chão.
Mas, em poucos anos, a situação mudou radicalmente. Existem inúmeras empresas ligadas à Internet e às tecnologias com ela relacionadas que são sólidas e altamente rentáveis e cuja avaliação é efectuada da mesma forma que qualquer outra empresa. Efectivamente, as cotações das respectivas acções sofrem o mesmo crivo de análise dos investidores sujeitando-se às normais exigências do mercado de capitais.
Se quisermos, no entanto, eleger uma empresa dessa área de negócio que simbolize tudo o que a Internet prometia e ainda o muito que alcançou e virá ainda a ser disponibilizado através de constante inovação, deparamos com um nome extraordinário que toda a gente conhece - Google.
Eu tenho de confessar que tendia a considerar de certa forma despropositado o nível de preços que foi sendo atingindo pelas acções da Google. De uma forma superficial, parecia-me que continuaria, talvez sub-reptícia, aquela ideia de sobrevalorizar os negócios futuros, arrastando com isso o primado do potencial sobre o real.
No entanto, afastando ideias mais empíricas e com base em simples técnicas de avaliação, pretendo dar a minha opinião sobre o que penso ser o valor tendencial desta empresa, que considero de certa forma uma máquina de produzir lucros e que está numa fase de crescimento espectacular.
Antes, quero só referir que têm sido relevantes as disparidades de opinião dos analistas de mercado sobre a definição do valor das acções desta empresa. Como exemplo, esses especialistas ou apontam uma queda das suas acções para menos de 200 dólares (revista Barron´s de Fevereiro passado), ou indicam a zona 400-600 como defensável (Mary Meeker do Morgan Stanley) ou chegam mesmo a considerar 2000 como um aceitável valor de longo prazo (Mark Stahlman of Caris & Co).
Já agora é bom referir que na altura da sua entrada na Bolsa, em Agosto de 2004, o preço de 85 dólares da sua IPO causou calafrios, pois muita gente pensou tratar-se de um valor exagerado. No entanto, depois de fazer um máximo a 475 dólares, já em Janeiro deste ano, as acções da Google negoceiam agora a cerca de 390.
Em primeiro lugar, devo referir que se trata de uma empresa que, no final de 2005, teve um lucro líquido de quase 1,5 biliões de dólares. Desde 2001 a 2005 o crescimento das vendas foi, respectivamente, de 409% (2002), 234% (2003), 118% (2004) e 92% (2005). Paralelamente, o crescimento do lucro líquido também tem vindo a registar sustentabilidade de ano para ano: 6% (2003), 278% (2004), 267% (2005).
O lucro líquido do primeiro trimestre de 2006 foi de 592 milhões de dólares (mais 60% do que em idêntico período de 2005). Mas a minha base de partida vai ser o lucro líquido do segundo trimestre (721 milhões), que correspondem a mais 110% do registado em igual trimestre do ano passado.
O método de avaliação que vou utilizar é o do Discounted cash-flow (DCF). É bom salientar que o ritmo de crescimento sustentado da Google é o verdadeiro cerne da questão no que toca ao cálculo do seu valor. Dito por outras palavras, a empresa valerá tanto mais quanto conseguir uma elevada taxa de crescimento dos lucros em todos os anos considerados. Pelo contrário, se esse aumento afrouxar de forma relevante o valor da empresa cai logo de forma brutal.
Embora a empresa tenha ultrapassado sucessivamente todas as expectativas, há duas condicionantes de sinal contrário que são muito sensíveis e que não permitem certezas. Por um lado, a capacidade de inovação e criatividade da Google são assinaláveis ao mesmo tempo que a transposição de todos os seus novos negócios para o mercado têm sido levados a cabo com uma visão estratégica e um sentido de obtenção de lucros verdadeiramente excepcionais. Por outro lado, mais tarde ou mais cedo, a verdadeira e dura concorrência (liderada ou não pela Microsoft) vai apertar e de que maneira, e não custará antever que poderão vir a existir estragos de alguma envergadura.
Há outro aspecto importante para a apreciação do valor da empresa. A Google não distribui dividendos e tem a intenção expressa de, no futuro, continuar a adoptar uma política de retenção da totalidade dos seus lucros. Isso é um factor muito positivo.
Embora a taxa de crescimento da Google tenha sido exponencial, vou estabelecer que a mesma estabiliza, num intervalo entre 27,5% e 37,5%, o que representa o maior ou menor optimismo em relação à evolução da empresa. Por outro lado, vou considerar uma projecção a 10 anos, o que com aquele tipo de crescimento em cada um dos anos terá sempre de se considerar muito bom. Vou efectuar a actualização dos cash flows anuais com base nos lucros líquidos, a uma taxa de 12%, que comporta já um elevado factor de risco – superior em 7% ao das aplicações sem risco - que considero suficiente para o tipo de empresa e sector em causa. Por fim, acrescentarei o valor residual de acordo com as técnicas normais para o efeito e deduzirei o valor do passivo que é reduzido, pouco mais do que simbólico.
Aplicando o meu modelo, chego a dois valores – um máximo de 480 e um mínimo de 267 dólares - que, de acordo com os pressupostos utilizados, constituem para mim o intervalo de valor tendencial de cada acção da Google. O intervalo é muito grande, o que prova que o nível de crescimento é fulcral, sendo importante qualquer ligeira variação. O valor médio, que nos deverá nortear, corresponde a um crescimento anual de 32,5% e a um valor por acção de 358.
Esta avaliação nunca será contraditória com os níveis de cotação no mercado de capitais. A variação do preço das acções, por vezes muito ampla, é uma característica normal dos mercados financeiros e só há que aproveitar as oportunidades que se nos deparam.
sábado, janeiro 03, 2004
O Mundo em que vivemos
Embora as palavras já estejam demasiado gastas, e constituam um verdadeiro lugar comum, não deixa mesmo assim de ser indispensável expressarmos bons votos para este novo ano. É inquestionável que precisamos que a esperança renasça em cada novo ciclo, tentando obter uma vida melhor a todos os níveis.
Claro que muito depende do nosso esforço e tenacidade, da nossa capacidade e da aprendizagem constante que devemos efectuar. Mas muitas coisas não estão na nossa mão, o que exige uma energia acrescida de adaptação e de luta positiva para agarrar aquelas oportunidades que mesmo as situações mais adversas proporcionam.
É nesta altura que são sempre produzidas muitas previsões para o ano que começa, umas mais astrais outras mais terrenas, mas todas elas tentando aproximações a acontecimentos futuros cujo desenvolvimento influenciará em grande medida a vida de todos.
Nesse sentido, já constitui uma tradição o inquérito a 130 corretores de bolsa, efectuado no início de cada ano por Bob Pisani, especialista e comentador da CNBC na Bolsa de Nova Iorque. A pergunta mais importante, e que também é a que nos interessa mais, diz respeito à previsão relativa aos acontecimentos mais determinantes de 2004.
Como tudo o que acontece (ou pode vir a acontecer) de mais relevante, quer na vida das pessoas em geral quer na actividade económica, se vê reflectido de imediato nos mercados financeiros, a opinião dos profissionais da bolsa mais importante do mundo (e que influencia todas as outras) é sempre muito interessante, pela sua visão alargada e informada.
Não necessariamente pela ordem indicada, serão as seguintes as mais importantes situações a acompanhar em 2004, na opinião daquele painel de corretores:
- Eleição presidencial americana
- Impacto da baixa do dólar
- Receios de terrorismo
- Influência da China na economia global
Quer gostemos ou não, neste mundo efectivamente globalizado, existem factos objectivos que têm grande influência real em todo o mundo civilizado. É bom que acompanhemos esses acontecimentos e os levemos na devida consideração, para que possamos colocar na melhor perspectiva os nossos problemas, de maior ou menor dimensão, sejam individuais ou nacionais.
O nosso mundo deixou definitivamente de ser aquele pequeno lugar longe da multidão tornando-se, para o bem ou para o mal, uma parte integrante de uma vasta comunidade de nações.
Embora as palavras já estejam demasiado gastas, e constituam um verdadeiro lugar comum, não deixa mesmo assim de ser indispensável expressarmos bons votos para este novo ano. É inquestionável que precisamos que a esperança renasça em cada novo ciclo, tentando obter uma vida melhor a todos os níveis.
Claro que muito depende do nosso esforço e tenacidade, da nossa capacidade e da aprendizagem constante que devemos efectuar. Mas muitas coisas não estão na nossa mão, o que exige uma energia acrescida de adaptação e de luta positiva para agarrar aquelas oportunidades que mesmo as situações mais adversas proporcionam.
É nesta altura que são sempre produzidas muitas previsões para o ano que começa, umas mais astrais outras mais terrenas, mas todas elas tentando aproximações a acontecimentos futuros cujo desenvolvimento influenciará em grande medida a vida de todos.
Nesse sentido, já constitui uma tradição o inquérito a 130 corretores de bolsa, efectuado no início de cada ano por Bob Pisani, especialista e comentador da CNBC na Bolsa de Nova Iorque. A pergunta mais importante, e que também é a que nos interessa mais, diz respeito à previsão relativa aos acontecimentos mais determinantes de 2004.
Como tudo o que acontece (ou pode vir a acontecer) de mais relevante, quer na vida das pessoas em geral quer na actividade económica, se vê reflectido de imediato nos mercados financeiros, a opinião dos profissionais da bolsa mais importante do mundo (e que influencia todas as outras) é sempre muito interessante, pela sua visão alargada e informada.
Não necessariamente pela ordem indicada, serão as seguintes as mais importantes situações a acompanhar em 2004, na opinião daquele painel de corretores:
- Eleição presidencial americana
- Impacto da baixa do dólar
- Receios de terrorismo
- Influência da China na economia global
Quer gostemos ou não, neste mundo efectivamente globalizado, existem factos objectivos que têm grande influência real em todo o mundo civilizado. É bom que acompanhemos esses acontecimentos e os levemos na devida consideração, para que possamos colocar na melhor perspectiva os nossos problemas, de maior ou menor dimensão, sejam individuais ou nacionais.
O nosso mundo deixou definitivamente de ser aquele pequeno lugar longe da multidão tornando-se, para o bem ou para o mal, uma parte integrante de uma vasta comunidade de nações.
terça-feira, dezembro 23, 2003
A Ajuda do Oriente
Todos nós evitamos gastar mais do que ganhamos. Este é, ou devia ser, um princípio básico na vida normal das pessoas, das empresas, das instituições e dos Países. Claro que existem sempre excepções, às vezes com toda a razão de ser, que dizem respeito a situações extraordinárias ou temporárias, a fases de maior dificuldade em que faz todo o sentido haver determinado nível de endividamento na expectativa de um regresso a breve prazo a uma condição mais normal e equilibrada.
Existem até casos exemplares, nomeadamente de grandes empresas, em que lucros de anos seguidos não chegaram para evitar a repentina ruptura financeira, exactamente por esquecimento de regras básicas elementares, como a de ajustar as necessidades de capital ao nível global da actividade, mas de forma sustentada, preservando o imprescindível equilíbrio.
Mas em relação a Países, a existência repetida de saldos negativos anuais nas contas comerciais e orçamentais, também pode revelar-se muito negativa e tornar complicada e demorada uma rectificação normal.
Hoje vamos passar por cima da situação orçamental portuguesa, cujo comentário ficará para outra altura, e analisarei alguns aspectos surpreendentes do actual défice da balança comercial dos Estados Unidos da América.
Em primeiro lugar, importa referir que o défice das contas externas dos EUA tem vindo a crescer de forma acelerada nos últimos anos, atingindo actualmente mais de 5% do PIB americano, e com tendência para continuar a crescer.
Neste contexto o dólar deverá continuar a cair, conforme está a acontecer serena mas firmemente desde princípios do ano passado. Se juntarmos a isso os juros baixos das obrigações do Estado, ficaríamos com a receita exacta para os EUA não conseguirem colocar no exterior a parcela da sua enorme dívida pública, tão necessária para cobrir o défice externo e, já agora, também o avultado défice orçamental. Pois é, quem quererá investir em dólares, com grande potencial de perda de valor e ainda por cima a juros modestos?
Embora exista cada vez menos interesse da parte de não residentes, a procura de activos em dólares por certos países continua muito forte e parece que, para já, essa situação se vai manter. E a razão é tanto mais simples quanto paradoxal. Expliquemos.
Do alto da sua posição de maior devedor mundial, os EUA irão continuar a ter quem lhes financie os seus fins de mês, porque o Japão, a China, a Coreia do Sul e Taiwan, entre outros, têm especial interesse nisso. Os americanos podem assim continuar descansadamente a consumir cada vez mais. É que todos aqueles países do Sudeste da Ásia arranjaram uma forma de se tornarem competitivos num mundo cada vez mais global. Habituaram-se a aplicar as receitas das suas exportações em activos de fraco rendimento denominados em dólares, nomeadamente títulos do tesouro americano, conseguindo manter as suas moedas adequadamente desvalorizadas e aumentar as suas exportações não só para os Estados Unidos mas também para o resto do mundo.
É um “negócio” em que todos parecem ficar satisfeitos, EUA e Países Asiáticos. Estes financiam sempre os EUA na parcela dos défices que for considerada necessária, e os Estados Unidos, por sua vez, continuam a adquirir um montante crescente das exportações daqueles.
O dólar a continuar a desvalorizar-se de forma ordeira e as taxas de juro a começarem eventualmente a subir num futuro relativamente próximo, são situações que não irão tirar um minuto de sono aos americanos. É que há a certeza que os mais de 2 biliões de dólares por dia, necessários para financiar o défice comercial, estarão completamente assegurados.
Só falta fazer uma pequena observação. Quanto maior for o desequilíbrio das contas públicas americanas maior a probabilidade de um ajustamento demasiado rápido ou mesmo brutal do dólar. Embora os EUA ainda sejam o centro financeiro mundial, os equilíbrios cambiais têm muito a ver com a confiança, e para além desta estar longe do seu ponto alto, será impossível manter durante muito mais tempo um dólar a desvalorizar continuamente com taxas de juro que não sobem. É assim que o caminho da retoma económica não será nem linear nem isento de profundos riscos.
Os sinais de alarme que continuam bem presentes podem repentinamente dar origem a modificações menos agradáveis na situação dos principais países, afectando o actual, mas instável, equilíbrio económico e financeiro internacional.
Há quem receie que a economia global seja uma espécie de castelo de cartas, em risco de desmoronamento. Mas nós vamos dar o benefício da dúvida, fazendo por acreditar que a tão ansiada recuperação económica veio para ficar.
Todos nós evitamos gastar mais do que ganhamos. Este é, ou devia ser, um princípio básico na vida normal das pessoas, das empresas, das instituições e dos Países. Claro que existem sempre excepções, às vezes com toda a razão de ser, que dizem respeito a situações extraordinárias ou temporárias, a fases de maior dificuldade em que faz todo o sentido haver determinado nível de endividamento na expectativa de um regresso a breve prazo a uma condição mais normal e equilibrada.
Existem até casos exemplares, nomeadamente de grandes empresas, em que lucros de anos seguidos não chegaram para evitar a repentina ruptura financeira, exactamente por esquecimento de regras básicas elementares, como a de ajustar as necessidades de capital ao nível global da actividade, mas de forma sustentada, preservando o imprescindível equilíbrio.
Mas em relação a Países, a existência repetida de saldos negativos anuais nas contas comerciais e orçamentais, também pode revelar-se muito negativa e tornar complicada e demorada uma rectificação normal.
Hoje vamos passar por cima da situação orçamental portuguesa, cujo comentário ficará para outra altura, e analisarei alguns aspectos surpreendentes do actual défice da balança comercial dos Estados Unidos da América.
Em primeiro lugar, importa referir que o défice das contas externas dos EUA tem vindo a crescer de forma acelerada nos últimos anos, atingindo actualmente mais de 5% do PIB americano, e com tendência para continuar a crescer.
Neste contexto o dólar deverá continuar a cair, conforme está a acontecer serena mas firmemente desde princípios do ano passado. Se juntarmos a isso os juros baixos das obrigações do Estado, ficaríamos com a receita exacta para os EUA não conseguirem colocar no exterior a parcela da sua enorme dívida pública, tão necessária para cobrir o défice externo e, já agora, também o avultado défice orçamental. Pois é, quem quererá investir em dólares, com grande potencial de perda de valor e ainda por cima a juros modestos?
Embora exista cada vez menos interesse da parte de não residentes, a procura de activos em dólares por certos países continua muito forte e parece que, para já, essa situação se vai manter. E a razão é tanto mais simples quanto paradoxal. Expliquemos.
Do alto da sua posição de maior devedor mundial, os EUA irão continuar a ter quem lhes financie os seus fins de mês, porque o Japão, a China, a Coreia do Sul e Taiwan, entre outros, têm especial interesse nisso. Os americanos podem assim continuar descansadamente a consumir cada vez mais. É que todos aqueles países do Sudeste da Ásia arranjaram uma forma de se tornarem competitivos num mundo cada vez mais global. Habituaram-se a aplicar as receitas das suas exportações em activos de fraco rendimento denominados em dólares, nomeadamente títulos do tesouro americano, conseguindo manter as suas moedas adequadamente desvalorizadas e aumentar as suas exportações não só para os Estados Unidos mas também para o resto do mundo.
É um “negócio” em que todos parecem ficar satisfeitos, EUA e Países Asiáticos. Estes financiam sempre os EUA na parcela dos défices que for considerada necessária, e os Estados Unidos, por sua vez, continuam a adquirir um montante crescente das exportações daqueles.
O dólar a continuar a desvalorizar-se de forma ordeira e as taxas de juro a começarem eventualmente a subir num futuro relativamente próximo, são situações que não irão tirar um minuto de sono aos americanos. É que há a certeza que os mais de 2 biliões de dólares por dia, necessários para financiar o défice comercial, estarão completamente assegurados.
Só falta fazer uma pequena observação. Quanto maior for o desequilíbrio das contas públicas americanas maior a probabilidade de um ajustamento demasiado rápido ou mesmo brutal do dólar. Embora os EUA ainda sejam o centro financeiro mundial, os equilíbrios cambiais têm muito a ver com a confiança, e para além desta estar longe do seu ponto alto, será impossível manter durante muito mais tempo um dólar a desvalorizar continuamente com taxas de juro que não sobem. É assim que o caminho da retoma económica não será nem linear nem isento de profundos riscos.
Os sinais de alarme que continuam bem presentes podem repentinamente dar origem a modificações menos agradáveis na situação dos principais países, afectando o actual, mas instável, equilíbrio económico e financeiro internacional.
Há quem receie que a economia global seja uma espécie de castelo de cartas, em risco de desmoronamento. Mas nós vamos dar o benefício da dúvida, fazendo por acreditar que a tão ansiada recuperação económica veio para ficar.
sexta-feira, dezembro 12, 2003
Um Néctar dos Himalaias
A notícia do novo whisky indiano é deliciosa. Se calhar como a própria bebida que parece ter um leve sabor a maçãs e mel.
A empresa indiana, que mal tendo o produto testado se apressou a exportá-lo para a Escócia, deve ter contado com o tradicional fair play das ilhas britânicas, pois a primeira reacção dos consumidores escoceses foi até agora bastante positiva. Mas que dizer da suprema simpatia dos indianos, ao afirmarem ser injusto que a sua própria bebida (Amrut, que significa néctar) seja comparada à dos concorrentes escoceses. Explicam que é só “um malte indiano que tem carácter próprio”. Isto é verdadeiro marketing!
Os indianos mostram assim que são criativos, e mesmo quando são muito competitivos conseguem ser bem educados.
E, por este exemplo, estão prontos para uma batalha chamada desenvolvimento que deverá ser construído todos os dias, mas que já é muito visível, embora com data marcada no longo prazo.
Eles sabem que os países desenvolvidos só têm uma solução para continuarem a ser o que ainda são: ter trabalhadores do conhecimento com produtividade. E a Índia, com toda sua população imensa, que se vai tornar ainda maior no próximo futuro, tem imensas potencialidades, que estão a ser orientadas exactamente para essa área indispensável e decisiva, que permite aumentar radicalmente o padrão de vida.
Este é só mais um caso, extraordinariamente sintomático. Realmente, a destilaria do sul da Índia conseguiu produzir um whisky com um leve sabor doce, mas com um trago amargo que não é comum na Escócia, conforme foi dito, certamente com espanto, pelo especialista de Glasgow John Lamond e devidamente referenciado pela própria BBC!
Serão os escoceses capazes de responder com a mesma criatividade empresarial?
A notícia do novo whisky indiano é deliciosa. Se calhar como a própria bebida que parece ter um leve sabor a maçãs e mel.
A empresa indiana, que mal tendo o produto testado se apressou a exportá-lo para a Escócia, deve ter contado com o tradicional fair play das ilhas britânicas, pois a primeira reacção dos consumidores escoceses foi até agora bastante positiva. Mas que dizer da suprema simpatia dos indianos, ao afirmarem ser injusto que a sua própria bebida (Amrut, que significa néctar) seja comparada à dos concorrentes escoceses. Explicam que é só “um malte indiano que tem carácter próprio”. Isto é verdadeiro marketing!
Os indianos mostram assim que são criativos, e mesmo quando são muito competitivos conseguem ser bem educados.
E, por este exemplo, estão prontos para uma batalha chamada desenvolvimento que deverá ser construído todos os dias, mas que já é muito visível, embora com data marcada no longo prazo.
Eles sabem que os países desenvolvidos só têm uma solução para continuarem a ser o que ainda são: ter trabalhadores do conhecimento com produtividade. E a Índia, com toda sua população imensa, que se vai tornar ainda maior no próximo futuro, tem imensas potencialidades, que estão a ser orientadas exactamente para essa área indispensável e decisiva, que permite aumentar radicalmente o padrão de vida.
Este é só mais um caso, extraordinariamente sintomático. Realmente, a destilaria do sul da Índia conseguiu produzir um whisky com um leve sabor doce, mas com um trago amargo que não é comum na Escócia, conforme foi dito, certamente com espanto, pelo especialista de Glasgow John Lamond e devidamente referenciado pela própria BBC!
Serão os escoceses capazes de responder com a mesma criatividade empresarial?
quarta-feira, dezembro 10, 2003
Um Passo de Gigante
Num dos últimos fins de semana, tive a satisfação de ler um artigo muito interessante de Pedro d´Anunciação. São textos destes que nos fazem acreditar que o País a que nos habituáramos, com uma falta de cultura congénita e dado a poucas leituras, terá certamente os dias contados.
Permito-me salientar uma frase, basta uma, tirada da sua crónica Zapping, no suplemento Actual do Expresso. A frase que eu prefiro sobre todas as demais é a seguinte: “Eu pensara já que um livro amado por tanta gente que não gosta de ler, não deveria fascinar os que amamos a literatura”.
É fantástico, com esta frase e de uma assentada, P. D´A. consegue dizer tudo. Senão vejamos.
Primeiro, existe muita gente em Portugal que está a amar um livro, sendo irrelevante qual ele seja, embora P.D´A. nos informe que é o “Equador” de Miguel Sousa Tavares. Mas torna-se bastante claro que P.D´A. só se estava a referir àquele livro como mero exemplo, havendo de certeza muitos outros livros também amados por muito gente. Esta, a primeira constatação muito interessante, a de que há um crescente gosto dos portugueses por livros, que não só lêem como até passaram a amar.
Em segundo lugar, toda essa gente que está a amar esse livro (e, como já concluímos, muitos outros livros), não gosta de ler. É triste, mas é verdade, segundo P. D´A. Todas essas centenas de milhares de leitores (nunca poderão ser menos, é fácil fazer as contas) afinal, não gostando de ler, fazem tanto esforço para devorar todos esses livros que até os conseguem, depois, amar. É simplesmente extraordinária a viragem que o nosso país está a fazer em termos de leitura de livros. Sim, porque ainda há os que amam a literatura, como veremos a seguir.
Realmente, e por último, diz P. D´A. que aquele livro (e como, já vimos, muitos outros) “não deveria fascinar os que amamos a literatura”. Ah! Estou a perceber. Os que amam a literatura, lêem mas não ficam de modo nenhum fascinados com “aquele” tipo de livros, e para além disso lêem necessariamente os livros que os fascinam! Lêem, portanto, tanto uns como outros, lendo desse modo ainda muito mais do que toda aquela outra gente a que P.D´A. se referia. Não sei se estão a ver, mas isto torna completamente desmesurado o número de portugueses que actualmente lêem livros!
O que é muito bom sinal! Só não sei se o próprio P.D´A. teve consciência do que conseguiu provar com o seu artigo. Ou teve?
Num dos últimos fins de semana, tive a satisfação de ler um artigo muito interessante de Pedro d´Anunciação. São textos destes que nos fazem acreditar que o País a que nos habituáramos, com uma falta de cultura congénita e dado a poucas leituras, terá certamente os dias contados.
Permito-me salientar uma frase, basta uma, tirada da sua crónica Zapping, no suplemento Actual do Expresso. A frase que eu prefiro sobre todas as demais é a seguinte: “Eu pensara já que um livro amado por tanta gente que não gosta de ler, não deveria fascinar os que amamos a literatura”.
É fantástico, com esta frase e de uma assentada, P. D´A. consegue dizer tudo. Senão vejamos.
Primeiro, existe muita gente em Portugal que está a amar um livro, sendo irrelevante qual ele seja, embora P.D´A. nos informe que é o “Equador” de Miguel Sousa Tavares. Mas torna-se bastante claro que P.D´A. só se estava a referir àquele livro como mero exemplo, havendo de certeza muitos outros livros também amados por muito gente. Esta, a primeira constatação muito interessante, a de que há um crescente gosto dos portugueses por livros, que não só lêem como até passaram a amar.
Em segundo lugar, toda essa gente que está a amar esse livro (e, como já concluímos, muitos outros livros), não gosta de ler. É triste, mas é verdade, segundo P. D´A. Todas essas centenas de milhares de leitores (nunca poderão ser menos, é fácil fazer as contas) afinal, não gostando de ler, fazem tanto esforço para devorar todos esses livros que até os conseguem, depois, amar. É simplesmente extraordinária a viragem que o nosso país está a fazer em termos de leitura de livros. Sim, porque ainda há os que amam a literatura, como veremos a seguir.
Realmente, e por último, diz P. D´A. que aquele livro (e como, já vimos, muitos outros) “não deveria fascinar os que amamos a literatura”. Ah! Estou a perceber. Os que amam a literatura, lêem mas não ficam de modo nenhum fascinados com “aquele” tipo de livros, e para além disso lêem necessariamente os livros que os fascinam! Lêem, portanto, tanto uns como outros, lendo desse modo ainda muito mais do que toda aquela outra gente a que P.D´A. se referia. Não sei se estão a ver, mas isto torna completamente desmesurado o número de portugueses que actualmente lêem livros!
O que é muito bom sinal! Só não sei se o próprio P.D´A. teve consciência do que conseguiu provar com o seu artigo. Ou teve?
segunda-feira, dezembro 01, 2003
Uma Aventura na América
1
O salão nobre da Universidade de Nova York estava repleto. Como em todas as grandes ocasiões, respirava-se a solenidade de uma atmosfera intemporal, cheia de tradições, de boas tradições, que certamente se haveriam de manter.
Estávamos em Maio de 1984, e ia ser concedido o Doutoramento Honoris Causa em Ciências Comerciais a Rose Gorelick Blumkin, de 90 anos. Sentada no seu alto cadeirão, Rose contemplava a assistência, o seu olhar deambulando devagar, primeiro por aquele espaço visitado por tantas gerações, depois pelo tempo, vagueou pelo seu tempo, pelo seu presente e, claro, pelo seu passado.
Principalmente pelo seu passado, a muitos milhares de quilómetros de si mesma, voltando atrás, muito atrás, à sua Rússia natal, onde afinal era bem ela própria que se via correr, naquelas manhãs tão frias, nos arredores de Minsk.
Quanto tempo passado, tanto tempo, mas lembrava-se bem da altura em que tinha resolvido partir, escapar da sua terra, e emigrar para a América com o marido. Fora há 67 anos, tinha ela então 23, e passava o ano de 1917.
Lembrou os primeiros anos nos Estados Unidos, de um trabalho duro e extenuante, vivido a dois, num autêntico contra-relógio para poder trazer a sua família para junto de si. E recordou também, com uma ternura imensa, a forma como aprendeu a língua inglesa, ela que nunca tinha entrado numa escola (nem o faria depois). Todas as noites, a sua filha mais velha ensinava-lhe, uma a uma, as palavras que tinha aprendido na escola durante o dia.
Estes pensamentos trouxeram-na momentaneamente ao presente, à Universidade e a esta cerimónia, o que lhe fez sentir um arrepio, ao pensar que era a altura dela, que a estariam já a chamar. Mas não, os discursos continuavam, e Rose voltou a admirar-se da forma como as pessoas estavam a ser simpáticas, como lhe estavam a dar uma atenção que ela não julgara possível, nem talvez merecida. Não, como poderia ser merecida uma honra destas se ela só tinha criado e dirigido uma empresa, com todo o empenho e honestidade é certo, até com bastante sucesso de que se orgulhava, mas nada mais? Era isso, a atitude da Universidade era extremamente simpática, mas ainda lhe custava imenso acreditar que o seu lugar poderia ser ao lado de tanta gente ilustre.
Mesmo sem querer, o seu cérebro voou de novo para os pensamentos de há pouco, que apareciam diante dos seus olhos com uma naturalidade e clareza que a ela própria admirava. Era curioso que não estava a passar em revista toda a sua vida mas sim determinados períodos e situações que se impunham com uma força determinante.
Veio-lhe à memória, o ano de 1937, em que depois de muitos anos a negociar roupas em segunda mão, tinha conseguido poupar 500 dólares e concretizar o sonho da sua vida: criar um armazém de venda de mobílias e tapeçarias, a sua Nebraska Furniture Mart. Que tempos! Lembrou-se bem de todos os obstáculos iniciais que teve de vencer, da concorrência feroz, da necessidade que teve de vender as mobílias da sua própria casa para pagar aos credores, exactamente na data combinada. Depois o negócio prosperou, ano após ano, até se tornar, de longe, a maior empresa de loja única do seu sector em todos o país.
Tinha tido razão, conseguira vender mais barato do que os outros e com melhor qualidade, dizendo sempre a verdade aos clientes. E nunca entrou em áreas onde não fosse a melhor, mantendo-se sempre no mobiliário e nas tapeçarias (estas últimas, eram mesmo a sua grande especialidade pessoal).
E, pensou, até a venda da empresa no ano anterior (por 55 milhões de dólares) tinha sido uma operação aconselhável e no interesse de toda a sua família. Para além do mais, todos se mantinham na gestão da “Mart”, e ela própria, com os seus 10%, continuou como Presidente da sua empresa.
E não evitou um sorriso ao lembrar-se da negociação com Warren Buffett. Ele fora de uma grande correcção, confiara nela em absoluto, dispensando até a auditoria e o inventário. E recordou-se da cara dele, um misto de compreensão risonha e de, ia jurar, admiração comovida, quando achou natural, e até necessário, que ela continuasse à frente da empresa.
A cerimónia continuava, ela ouvia o elogio do reitor, talvez mais pessoal do que ela esperaria. Mas Rose, estranhamente, não conseguia estar com a atenção que desejava, o seu cérebro parecia flutuar e demorou o resto daquele discurso a tentar serenar e a tomar consciência precisa do que se estava a passar. Até que o momento chegou e Rose estava doutorada. Exactamente na mesma Universidade em que tinham recebido idêntica distinção personalidades como os CEO´s da EXXON, Citicorp, IBM e General Motors e, pouco tempo antes, Paul Volcker, Presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, uma extraordinária figura de financeiro que influenciou decisivamente a economia americana nos anos 70 e 80.
2
E a sua vida continuou. O tempo foi passando, e Rose Blumkin (conhecida em todo o Nebraska por Mrs. B.), com a mesma alegria de sempre, mantinha o seu ritmo normal na empresa, trabalhando 7 dias por semana desde a abertura ao fecho, adorando atender os seus clientes, surpreendendo-os com excelentes negócios que eles se apressavam a aceitar. “Ia a casa para comer e dormir, e pouco mais. E mal podia esperar que o dia nascesse, para voltar de novo à empresa”. Parecia mesmo que ainda não tinha atingido completamente todo o seu verdadeiro potencial! E isto já com 96 anos!
O segredo do sucesso da sua empresa sempre tinha sido o nível extremamente baixo dos custos operacionais, que se situavam, de forma sustentada, em pouco mais de 15% das vendas. E foi assim que conseguiu apresentar um crescimento ininterrupto do volume de negócios durante 64 anos.
Mas em 1989, aconteceu uma situação inesperada. Devido a uma diferença de opinião com a restante administração da empresa (que incluía o seu filho Louie), Rose decidiu sair e criar, de imediato, num edifício adjacente que lhe pertencia, uma nova empresa de … tapeçarias, estabelecendo, alguns anos mais tarde, já com 99 anos, um acordo de não-concorrência com a “sua” Nebraska Furniture Mart!
Essa sua actuação não seria uma forma engenhosa de sair na altura certa, deixando todo o caminho aos mais novos (!), e para ao mesmo tempo continuar a fazer aquilo que sempre quis e soube?
Ao completar 100 anos de idade, as velas acenderam-se na empresa, para uma mais do que devida comemoração. Mas como o trabalho está sempre primeiro, Mrs. B. adiou a festa para uma tarde em que a loja estivesse encerrada…
Rose Blumkin, morreu em 1998, aos 104 anos de idade. A sua empresa mantém-se hoje na mesma rota de crescimento e de lucros, tendo atingido, no final desse ano, 300 milhões de dólares em vendas, as quais continuaram a subir com naturalidade até ao presente.
Tudo tinha começado em 1937, com um investimento de 500 dólares, um enorme entusiasmo, ideias muito claras do negócio e uma tremenda vontade de vencer.
Não há dúvida que ela foi e é uma fonte de inspiração, mesmo para quem nunca a conheceu!…
1
O salão nobre da Universidade de Nova York estava repleto. Como em todas as grandes ocasiões, respirava-se a solenidade de uma atmosfera intemporal, cheia de tradições, de boas tradições, que certamente se haveriam de manter.
Estávamos em Maio de 1984, e ia ser concedido o Doutoramento Honoris Causa em Ciências Comerciais a Rose Gorelick Blumkin, de 90 anos. Sentada no seu alto cadeirão, Rose contemplava a assistência, o seu olhar deambulando devagar, primeiro por aquele espaço visitado por tantas gerações, depois pelo tempo, vagueou pelo seu tempo, pelo seu presente e, claro, pelo seu passado.
Principalmente pelo seu passado, a muitos milhares de quilómetros de si mesma, voltando atrás, muito atrás, à sua Rússia natal, onde afinal era bem ela própria que se via correr, naquelas manhãs tão frias, nos arredores de Minsk.
Quanto tempo passado, tanto tempo, mas lembrava-se bem da altura em que tinha resolvido partir, escapar da sua terra, e emigrar para a América com o marido. Fora há 67 anos, tinha ela então 23, e passava o ano de 1917.
Lembrou os primeiros anos nos Estados Unidos, de um trabalho duro e extenuante, vivido a dois, num autêntico contra-relógio para poder trazer a sua família para junto de si. E recordou também, com uma ternura imensa, a forma como aprendeu a língua inglesa, ela que nunca tinha entrado numa escola (nem o faria depois). Todas as noites, a sua filha mais velha ensinava-lhe, uma a uma, as palavras que tinha aprendido na escola durante o dia.
Estes pensamentos trouxeram-na momentaneamente ao presente, à Universidade e a esta cerimónia, o que lhe fez sentir um arrepio, ao pensar que era a altura dela, que a estariam já a chamar. Mas não, os discursos continuavam, e Rose voltou a admirar-se da forma como as pessoas estavam a ser simpáticas, como lhe estavam a dar uma atenção que ela não julgara possível, nem talvez merecida. Não, como poderia ser merecida uma honra destas se ela só tinha criado e dirigido uma empresa, com todo o empenho e honestidade é certo, até com bastante sucesso de que se orgulhava, mas nada mais? Era isso, a atitude da Universidade era extremamente simpática, mas ainda lhe custava imenso acreditar que o seu lugar poderia ser ao lado de tanta gente ilustre.
Mesmo sem querer, o seu cérebro voou de novo para os pensamentos de há pouco, que apareciam diante dos seus olhos com uma naturalidade e clareza que a ela própria admirava. Era curioso que não estava a passar em revista toda a sua vida mas sim determinados períodos e situações que se impunham com uma força determinante.
Veio-lhe à memória, o ano de 1937, em que depois de muitos anos a negociar roupas em segunda mão, tinha conseguido poupar 500 dólares e concretizar o sonho da sua vida: criar um armazém de venda de mobílias e tapeçarias, a sua Nebraska Furniture Mart. Que tempos! Lembrou-se bem de todos os obstáculos iniciais que teve de vencer, da concorrência feroz, da necessidade que teve de vender as mobílias da sua própria casa para pagar aos credores, exactamente na data combinada. Depois o negócio prosperou, ano após ano, até se tornar, de longe, a maior empresa de loja única do seu sector em todos o país.
Tinha tido razão, conseguira vender mais barato do que os outros e com melhor qualidade, dizendo sempre a verdade aos clientes. E nunca entrou em áreas onde não fosse a melhor, mantendo-se sempre no mobiliário e nas tapeçarias (estas últimas, eram mesmo a sua grande especialidade pessoal).
E, pensou, até a venda da empresa no ano anterior (por 55 milhões de dólares) tinha sido uma operação aconselhável e no interesse de toda a sua família. Para além do mais, todos se mantinham na gestão da “Mart”, e ela própria, com os seus 10%, continuou como Presidente da sua empresa.
E não evitou um sorriso ao lembrar-se da negociação com Warren Buffett. Ele fora de uma grande correcção, confiara nela em absoluto, dispensando até a auditoria e o inventário. E recordou-se da cara dele, um misto de compreensão risonha e de, ia jurar, admiração comovida, quando achou natural, e até necessário, que ela continuasse à frente da empresa.
A cerimónia continuava, ela ouvia o elogio do reitor, talvez mais pessoal do que ela esperaria. Mas Rose, estranhamente, não conseguia estar com a atenção que desejava, o seu cérebro parecia flutuar e demorou o resto daquele discurso a tentar serenar e a tomar consciência precisa do que se estava a passar. Até que o momento chegou e Rose estava doutorada. Exactamente na mesma Universidade em que tinham recebido idêntica distinção personalidades como os CEO´s da EXXON, Citicorp, IBM e General Motors e, pouco tempo antes, Paul Volcker, Presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, uma extraordinária figura de financeiro que influenciou decisivamente a economia americana nos anos 70 e 80.
2
E a sua vida continuou. O tempo foi passando, e Rose Blumkin (conhecida em todo o Nebraska por Mrs. B.), com a mesma alegria de sempre, mantinha o seu ritmo normal na empresa, trabalhando 7 dias por semana desde a abertura ao fecho, adorando atender os seus clientes, surpreendendo-os com excelentes negócios que eles se apressavam a aceitar. “Ia a casa para comer e dormir, e pouco mais. E mal podia esperar que o dia nascesse, para voltar de novo à empresa”. Parecia mesmo que ainda não tinha atingido completamente todo o seu verdadeiro potencial! E isto já com 96 anos!
O segredo do sucesso da sua empresa sempre tinha sido o nível extremamente baixo dos custos operacionais, que se situavam, de forma sustentada, em pouco mais de 15% das vendas. E foi assim que conseguiu apresentar um crescimento ininterrupto do volume de negócios durante 64 anos.
Mas em 1989, aconteceu uma situação inesperada. Devido a uma diferença de opinião com a restante administração da empresa (que incluía o seu filho Louie), Rose decidiu sair e criar, de imediato, num edifício adjacente que lhe pertencia, uma nova empresa de … tapeçarias, estabelecendo, alguns anos mais tarde, já com 99 anos, um acordo de não-concorrência com a “sua” Nebraska Furniture Mart!
Essa sua actuação não seria uma forma engenhosa de sair na altura certa, deixando todo o caminho aos mais novos (!), e para ao mesmo tempo continuar a fazer aquilo que sempre quis e soube?
Ao completar 100 anos de idade, as velas acenderam-se na empresa, para uma mais do que devida comemoração. Mas como o trabalho está sempre primeiro, Mrs. B. adiou a festa para uma tarde em que a loja estivesse encerrada…
Rose Blumkin, morreu em 1998, aos 104 anos de idade. A sua empresa mantém-se hoje na mesma rota de crescimento e de lucros, tendo atingido, no final desse ano, 300 milhões de dólares em vendas, as quais continuaram a subir com naturalidade até ao presente.
Tudo tinha começado em 1937, com um investimento de 500 dólares, um enorme entusiasmo, ideias muito claras do negócio e uma tremenda vontade de vencer.
Não há dúvida que ela foi e é uma fonte de inspiração, mesmo para quem nunca a conheceu!…
segunda-feira, novembro 24, 2003
Os BRIC´s não Brincam!
Se calhar não sabem o que são os BRIC´s? Quer dizer, saber sabem, mas aquela sigla é complicativa, até parece o nome de uma marca de cerveja. Os BRIC´s são, nada mais nada menos, os países que se posicionarão entre as 6 maiores economias mundiais, lá para meados deste Século XXI: Brasil, Rússia, Índia e China. Admirados? Não é caso para isso, vou já explicar tudo como deve ser.
Depois de muitas décadas de espera, tudo indica que estes quatro países irão entrar, à vez, a partir de 2040 - 2050, para o grupo dos países com maior poder económico do mundo, passando a integrar o G6, juntamente com os EUA e o Japão, ao mesmo tempo que desalojam os restantes. Embora continuem a ter, mesmo nessa altura, uma população comparativamente bastante menos rica do que estes, terão direito à honrosa etiqueta de grandes potências económicas, embora o título de superpotência se deva manter na posse dos Estados Unidos da América.
Mas, surpresa das surpresas, se os pressupostos não muito ousados de crescimento se concretizarem, a China ultrapassará o PIB dos EUA já em 2041, tornando-se a maior economia do mundo!
Claro que, por exemplo, também a Alemanha, a França e o Canadá falham completamente esta corrida, por não disporem dos factores decisivos para um crescimento real relevante: crescimento do emprego utilizando tecnologias avançadas, maior produtividade e progresso técnico e obtenção de elevados montantes de investimento directo estrangeiro.
Mas vamos lá fazer uma breve incursão no tempo até ao ano 2050 e já voltamos. Não é ficção científica, é tão-somente tentar antecipar a realidade, económica e sociológica. E, que diabo, também não falta assim tanto tempo como isso!
Preparem-se e façam por aguentar firme, pois as próximas cenas podem ser demasiado realistas e cruas para pessoas mais sensíveis. É o futuro em toda a sua plenitude que vai perpassar em frente dos nossos olhos, no ano 2050.
Vamos encontrar os EUA com uma grande maioria da sua população de origem não anglo-saxónica, onde avultará a comunidade de raiz hispânica, com grande taxa de natalidade. É verdadeiramente o que se pode chamar um outro Novo Mundo, em que os EUA irão perdendo posição relativa para os BRIC´s, sem contudo deixarem de ser a economia onde o rendimento per capita é o mais elevado e com uma subida sustentada ao longo dos anos.
Graças a taxas reais de crescimento médias superiores no longo prazo (entre 5% e 7%), a China e a Índia poderão ultrapassar, respectivamente, o PIB dos EUA (em 2041) e o do Japão (2032). É de notar que se prevê que os EUA cresçam a uma taxa real média de 2% ao ano até 2050.
Especialmente por motivos de diferença sensível nas taxas de natalidade, a actual União Europeia deixará de ter mais 90 milhões de habitantes do que os EUA, como agora acontece, para passar a ter menos 50 milhões, em 2050. Uma nota para referir que a imigração não permitirá solucionar problemas da Europa em termos de escassez de mão-de-obra e desenvolvimento, atendendo a que os imigrantes tendem a ter poucos filhos no seu novo país, especialmente na 1ª. geração.
Neste quadro, a União Europeia como um todo, supondo que se mantém a sua unidade política, fica com uma dimensão económica muito inferior, representando em 2050, somente 27% da China, 33% dos EUA e 40% da Índia. De qualquer modo, considerada como se fosse um País, seria à vontade a 4ª. economia do mundo, a seguir a estes três países.
Um aspecto que necessita ser realçado é o facto de as maiores economias do mundo (pelo PIB) deixarem de ser, na maioria dos casos, as mais ricas (pelo rendimento per capita).
O estudo recente da Goldman Sachs, em que me estou principalmente a basear, é tecnicamente bastante credível. No entanto, existem determinados pressupostos chave cuja alteração poderá implicar uma modificação substancial no quadro de situação para as próximas décadas.
Mas se os pressupostos se materializarem teremos a seguinte ordenação dos principais países, em termos de PIB e de Rendimento per capita, em 2050:
PIB (em biliões de USD) PIB per Capita (em USD)
1 – China 44.453 1 – E.U.A. 83.710
2 – E.U.A. 35.165 2 - Japão 66.805
3 - Índia 27.803 3 – Grã-Bretanha 59.122
4 – Japão 6.673 4 – França 51.594
5 – Brasil 6.074 5 – Rússia 49.646
6 – Rússia 5.870 6 – Alemanha 48.952
7 – Grã-Bretanha 3.782 7 – Itália 40.901
8 – Alemanha 3.603 8 – China 31.357
E, perguntarão, qual o papel de Portugal no meio desta dinâmica toda? Ora essa, nós pertencemos à União Europeia, as coisas têm que ser vistas no conjunto desta, como um todo. Ah! Não pode ser?! Não é cientificamente correcto porque somos um país soberano? Pronto, está bem, então vamos lá analisar isso rapidamente.
Pelas minhas contas, no ano 2050, a União Europeia já deve contar, pelo menos, com 33 países. Isto, depois da entrada dos novos 10 membros em Maio de 2004, da Roménia e Bulgária em 2007, logo a seguir da Croácia e, alguns anos depois, do conjunto formado pela Turquia, Sérvia-Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Macedónia e Albânia. Embora discutível, deixo de fora a Suíça, Noruega e Islândia, pelo desinteresse até agora manifestado, e a Ucrânia, Bielorrússia e Moldova, por falta de contactos nesse sentido e pela complexidade das eventuais negociações, que teriam de envolver a Rússia.
Está-se mesmo a ver que o objectivo de Portugal será sempre qualquer coisa do estilo, apanhar o pelotão da frente (nessa altura mais alargado) ou sermos um dos melhores dos pequenos países do sul da Europa.
Claro que se alguém quiser fazer aos países da UE alargada, um estudo semelhante ao dos BRIC´s, dá-me a impressão que as surpresas também serão muitas e talvez não muito agradáveis para nós.
Se calhar não sabem o que são os BRIC´s? Quer dizer, saber sabem, mas aquela sigla é complicativa, até parece o nome de uma marca de cerveja. Os BRIC´s são, nada mais nada menos, os países que se posicionarão entre as 6 maiores economias mundiais, lá para meados deste Século XXI: Brasil, Rússia, Índia e China. Admirados? Não é caso para isso, vou já explicar tudo como deve ser.
Depois de muitas décadas de espera, tudo indica que estes quatro países irão entrar, à vez, a partir de 2040 - 2050, para o grupo dos países com maior poder económico do mundo, passando a integrar o G6, juntamente com os EUA e o Japão, ao mesmo tempo que desalojam os restantes. Embora continuem a ter, mesmo nessa altura, uma população comparativamente bastante menos rica do que estes, terão direito à honrosa etiqueta de grandes potências económicas, embora o título de superpotência se deva manter na posse dos Estados Unidos da América.
Mas, surpresa das surpresas, se os pressupostos não muito ousados de crescimento se concretizarem, a China ultrapassará o PIB dos EUA já em 2041, tornando-se a maior economia do mundo!
Claro que, por exemplo, também a Alemanha, a França e o Canadá falham completamente esta corrida, por não disporem dos factores decisivos para um crescimento real relevante: crescimento do emprego utilizando tecnologias avançadas, maior produtividade e progresso técnico e obtenção de elevados montantes de investimento directo estrangeiro.
Mas vamos lá fazer uma breve incursão no tempo até ao ano 2050 e já voltamos. Não é ficção científica, é tão-somente tentar antecipar a realidade, económica e sociológica. E, que diabo, também não falta assim tanto tempo como isso!
Preparem-se e façam por aguentar firme, pois as próximas cenas podem ser demasiado realistas e cruas para pessoas mais sensíveis. É o futuro em toda a sua plenitude que vai perpassar em frente dos nossos olhos, no ano 2050.
Vamos encontrar os EUA com uma grande maioria da sua população de origem não anglo-saxónica, onde avultará a comunidade de raiz hispânica, com grande taxa de natalidade. É verdadeiramente o que se pode chamar um outro Novo Mundo, em que os EUA irão perdendo posição relativa para os BRIC´s, sem contudo deixarem de ser a economia onde o rendimento per capita é o mais elevado e com uma subida sustentada ao longo dos anos.
Graças a taxas reais de crescimento médias superiores no longo prazo (entre 5% e 7%), a China e a Índia poderão ultrapassar, respectivamente, o PIB dos EUA (em 2041) e o do Japão (2032). É de notar que se prevê que os EUA cresçam a uma taxa real média de 2% ao ano até 2050.
Especialmente por motivos de diferença sensível nas taxas de natalidade, a actual União Europeia deixará de ter mais 90 milhões de habitantes do que os EUA, como agora acontece, para passar a ter menos 50 milhões, em 2050. Uma nota para referir que a imigração não permitirá solucionar problemas da Europa em termos de escassez de mão-de-obra e desenvolvimento, atendendo a que os imigrantes tendem a ter poucos filhos no seu novo país, especialmente na 1ª. geração.
Neste quadro, a União Europeia como um todo, supondo que se mantém a sua unidade política, fica com uma dimensão económica muito inferior, representando em 2050, somente 27% da China, 33% dos EUA e 40% da Índia. De qualquer modo, considerada como se fosse um País, seria à vontade a 4ª. economia do mundo, a seguir a estes três países.
Um aspecto que necessita ser realçado é o facto de as maiores economias do mundo (pelo PIB) deixarem de ser, na maioria dos casos, as mais ricas (pelo rendimento per capita).
O estudo recente da Goldman Sachs, em que me estou principalmente a basear, é tecnicamente bastante credível. No entanto, existem determinados pressupostos chave cuja alteração poderá implicar uma modificação substancial no quadro de situação para as próximas décadas.
Mas se os pressupostos se materializarem teremos a seguinte ordenação dos principais países, em termos de PIB e de Rendimento per capita, em 2050:
PIB (em biliões de USD) PIB per Capita (em USD)
1 – China 44.453 1 – E.U.A. 83.710
2 – E.U.A. 35.165 2 - Japão 66.805
3 - Índia 27.803 3 – Grã-Bretanha 59.122
4 – Japão 6.673 4 – França 51.594
5 – Brasil 6.074 5 – Rússia 49.646
6 – Rússia 5.870 6 – Alemanha 48.952
7 – Grã-Bretanha 3.782 7 – Itália 40.901
8 – Alemanha 3.603 8 – China 31.357
E, perguntarão, qual o papel de Portugal no meio desta dinâmica toda? Ora essa, nós pertencemos à União Europeia, as coisas têm que ser vistas no conjunto desta, como um todo. Ah! Não pode ser?! Não é cientificamente correcto porque somos um país soberano? Pronto, está bem, então vamos lá analisar isso rapidamente.
Pelas minhas contas, no ano 2050, a União Europeia já deve contar, pelo menos, com 33 países. Isto, depois da entrada dos novos 10 membros em Maio de 2004, da Roménia e Bulgária em 2007, logo a seguir da Croácia e, alguns anos depois, do conjunto formado pela Turquia, Sérvia-Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Macedónia e Albânia. Embora discutível, deixo de fora a Suíça, Noruega e Islândia, pelo desinteresse até agora manifestado, e a Ucrânia, Bielorrússia e Moldova, por falta de contactos nesse sentido e pela complexidade das eventuais negociações, que teriam de envolver a Rússia.
Está-se mesmo a ver que o objectivo de Portugal será sempre qualquer coisa do estilo, apanhar o pelotão da frente (nessa altura mais alargado) ou sermos um dos melhores dos pequenos países do sul da Europa.
Claro que se alguém quiser fazer aos países da UE alargada, um estudo semelhante ao dos BRIC´s, dá-me a impressão que as surpresas também serão muitas e talvez não muito agradáveis para nós.
sábado, novembro 15, 2003
A Teoria dos Três R´s
A Teoria dos Três R´s
Será agora que a nossa EDP arranca? O Euro não consegue por agora subir mais um pouco e vai fazer uma correcção para ganhar forças? A situação político-económica japonesa impõe neste momento um acompanhamento mais apertado? E, muito importante, o ouro vai mesmo passar os 400 dólares como se fosse uma flecha?…
Estas e outras questões necessitam de resposta, acompanhamento e acção.
Mas a vida é só isto? Claro que era bom que pudéssemos viver dos ganhos nos mercados financeiros, mas mesmo assim, há mais coisas, existem outros interesses, é imprescindível alargar os horizontes!
Vamos mesmo abrir um parêntesis na nossa vida semanal e fazer uma pequena sessão de relax, aplicando o sistema dos 3 R´s do trader de sucesso (Rest, Relaxation, Research).
Então vamos falar de viagens? Bolas, isso é um bocado banal. Não, eu gosto mesmo é de as fazer, vamos escolher outro tema!
Discutir a nossa situação política e a contribuição do nosso país no esforço para estreitar os laços … bla bla bla bla bla bla … Bem, isso não vai descontrair nada, até porque há alguns dramas em curso. O melhor é ficar para uma outra vez.
Ahh! Já sei, desporto… talvez futebol, estão interessados em futebol? Não? Porque é outra vez uma misturada de política e … pois, é melhor não. Se calhar podíamos falar das outras modalidades desportivas, agora que começam a estar próximos os Jogos Olímpicos. Mas, talvez, não mencionando aquele novo produto que afinal era tão dopping ou mais que os outros todos. Mas assim não fica quase nada para falar, não é? Também me parece!
Estou a ver, não têm coragem de confessar, mas o que gostavam mesmo era de uma boa dica, de uma opinião certeira, de dados que justificassem aquela subida desafiadora ou aquela descida quase infame, com bases técnicas e fundamentais tão promissoras.
Mas não, não me convencem, agora vamos mesmo fazer um intervalo. E como não há alternativa, vou mesmo falar de um das raras coisas que neste ano da graça de 2003, me interessou e entusiasmou. Estou a referir-me ao livro “Equador” de Miguel Sousa Tavares.
Fiz a leitura deste livro, com mais de 500 páginas, de uma forma mais do que interessada, avassaladora, quase obsessiva, não descansando enquanto não o terminei. Eu sou um crónico leitor de inícios de livros - que são depois postos de lado, de livros corajosamente levados até metade – que depois ficam para acabar mais tarde, de livros policiais desprezados – excepto de dois ou três autores, de livros escolhidos até à exaustão – sempre com um critério muito apertado. É por isso que ter gostado tanto do “Equador” é um caso fora do comum, que só me acontecia quando lia, em criança, Emilio Salgari, e depois, já quase adulto, Eça de Queiroz.
Para mim o livro é extraordinariamente interessante a vários níveis.
Primeiro, porque a sua escrita é sempre inteligente, criando um ambiente de realismo quase palpável. E isso ligado a um estilo fluente e sólido, com desenvolvimentos inesperados, que faz com que acompanhemos a acção com interesse crescente.
Para além disso, o tema, que partiu de uma situação verídica, é de uma densidade assombrosa, com uma história tão humana quanto heróica, e que merece ter sido romanceada a tão alto nível.
Sousa Tavares, anda talvez a perder-se na sua função qualificada mas menos importante de comentador. Ele, que discorre e emite opiniões sobre os mais variados casos e assuntos do nosso país, numa tarefa árdua e que provoca muitos ódios de estimação, não pode dessa maneira ficar com o tempo e a paz de espírito suficientes para ser o romancista que ele pode ser.
Mas voltando ao livro, um dos seus aspectos centrais vai buscar muito à condição de ser português, daquele que tenta cumprir os ditames da honra como primeiro objectivo. Mas na vida, não basta pensar que se tem razão, é preciso algo mais, ver mais longe. É necessário ter uma percepção muito clara sobre a viabilidade da reacção dos outros: será que eles poderão, quererão ou estarão dispostos a ser convencidos da nossa razão?
No plano estritamente individual, se em consciência pudermos antever que as nossas certezas não têm condições de vingar, só há uma saída: seguir outro caminho e não ter que dar contas a ninguém.
A Teoria dos Três R´s
Será agora que a nossa EDP arranca? O Euro não consegue por agora subir mais um pouco e vai fazer uma correcção para ganhar forças? A situação político-económica japonesa impõe neste momento um acompanhamento mais apertado? E, muito importante, o ouro vai mesmo passar os 400 dólares como se fosse uma flecha?…
Estas e outras questões necessitam de resposta, acompanhamento e acção.
Mas a vida é só isto? Claro que era bom que pudéssemos viver dos ganhos nos mercados financeiros, mas mesmo assim, há mais coisas, existem outros interesses, é imprescindível alargar os horizontes!
Vamos mesmo abrir um parêntesis na nossa vida semanal e fazer uma pequena sessão de relax, aplicando o sistema dos 3 R´s do trader de sucesso (Rest, Relaxation, Research).
Então vamos falar de viagens? Bolas, isso é um bocado banal. Não, eu gosto mesmo é de as fazer, vamos escolher outro tema!
Discutir a nossa situação política e a contribuição do nosso país no esforço para estreitar os laços … bla bla bla bla bla bla … Bem, isso não vai descontrair nada, até porque há alguns dramas em curso. O melhor é ficar para uma outra vez.
Ahh! Já sei, desporto… talvez futebol, estão interessados em futebol? Não? Porque é outra vez uma misturada de política e … pois, é melhor não. Se calhar podíamos falar das outras modalidades desportivas, agora que começam a estar próximos os Jogos Olímpicos. Mas, talvez, não mencionando aquele novo produto que afinal era tão dopping ou mais que os outros todos. Mas assim não fica quase nada para falar, não é? Também me parece!
Estou a ver, não têm coragem de confessar, mas o que gostavam mesmo era de uma boa dica, de uma opinião certeira, de dados que justificassem aquela subida desafiadora ou aquela descida quase infame, com bases técnicas e fundamentais tão promissoras.
Mas não, não me convencem, agora vamos mesmo fazer um intervalo. E como não há alternativa, vou mesmo falar de um das raras coisas que neste ano da graça de 2003, me interessou e entusiasmou. Estou a referir-me ao livro “Equador” de Miguel Sousa Tavares.
Fiz a leitura deste livro, com mais de 500 páginas, de uma forma mais do que interessada, avassaladora, quase obsessiva, não descansando enquanto não o terminei. Eu sou um crónico leitor de inícios de livros - que são depois postos de lado, de livros corajosamente levados até metade – que depois ficam para acabar mais tarde, de livros policiais desprezados – excepto de dois ou três autores, de livros escolhidos até à exaustão – sempre com um critério muito apertado. É por isso que ter gostado tanto do “Equador” é um caso fora do comum, que só me acontecia quando lia, em criança, Emilio Salgari, e depois, já quase adulto, Eça de Queiroz.
Para mim o livro é extraordinariamente interessante a vários níveis.
Primeiro, porque a sua escrita é sempre inteligente, criando um ambiente de realismo quase palpável. E isso ligado a um estilo fluente e sólido, com desenvolvimentos inesperados, que faz com que acompanhemos a acção com interesse crescente.
Para além disso, o tema, que partiu de uma situação verídica, é de uma densidade assombrosa, com uma história tão humana quanto heróica, e que merece ter sido romanceada a tão alto nível.
Sousa Tavares, anda talvez a perder-se na sua função qualificada mas menos importante de comentador. Ele, que discorre e emite opiniões sobre os mais variados casos e assuntos do nosso país, numa tarefa árdua e que provoca muitos ódios de estimação, não pode dessa maneira ficar com o tempo e a paz de espírito suficientes para ser o romancista que ele pode ser.
Mas voltando ao livro, um dos seus aspectos centrais vai buscar muito à condição de ser português, daquele que tenta cumprir os ditames da honra como primeiro objectivo. Mas na vida, não basta pensar que se tem razão, é preciso algo mais, ver mais longe. É necessário ter uma percepção muito clara sobre a viabilidade da reacção dos outros: será que eles poderão, quererão ou estarão dispostos a ser convencidos da nossa razão?
No plano estritamente individual, se em consciência pudermos antever que as nossas certezas não têm condições de vingar, só há uma saída: seguir outro caminho e não ter que dar contas a ninguém.
sábado, novembro 08, 2003
O Exemplo da Srª. Blumkin
Não foi propriamente uma paixão louca, guiada pelo coração e alheia a tudo o resto. Muito menos se tratou de um amor à primeira vista. Mas poderá sem dúvida afirmar-se que, como muitas vezes acontece, foi o homem que tomou a iniciativa, que pacientemente a seguiu e, por fim, a convenceu. Esta é também uma ligação que triunfou, apesar de alguma oposição da família dela.
Aconteceu em 1983, no Nebraska, a Srª. Rose Blumkin tinha 90 anos e Warren Buffett estava a caminho de se tornar um dos homens mais ricos da América.
Quando, depois de longo estudo e acompanhamento, Buffett comprou a sua empresa de mobílias, a mais competitiva e rentável dos E.U.A. no seu ramo, a Srª. Blumkin, ainda detentora de 10% do capital, continuou muito naturalmente a trabalhar na empresa, no seu lugar de Presidente do Conselho de Administração, e disposta a imprimir-lhe a sua costumada e extraordinária dinâmica.
Como grande investidor de longo prazo, Warren Buffett detém inúmeras empresas muito lucrativas e de elevado crescimento. Actualmente, com duas dezenas de biliões de dólares em dinheiro para aplicar, ele não consegue encontrar activos que o possam realmente entusiasmar. Isso não é mais do que o reflexo de uma economia mundial ainda com muitas interrogações. Por um lado a falta de motivação, por outro o facto de o seu império empresarial quase andar por si próprio, faz quase ter pena do nosso amigo, sem ocupações suficientes para passar o tempo…
É exactamente esta a altura que Portugal deveria escolher para preparar o envio de uma delegação, com todos os poderes, para cativar este multibilionário, momentaneamente desincentivado, levando-o a interessar-se pelo problema económico-financeiro português, de forma a poder orientar-nos e criar uma estratégia para a nossa recuperação, que de outro modo se afigura muito problemática.
Na prática, o objectivo seria convencê-lo a tornar-se o consultor financeiro da República Portuguesa. Se ele alguma vez aceitasse, o seu preço nunca seria demasiado caro, disso poderíamos ter a certeza. Por outro lado, não estaria em causa o nosso interesse no dinheiro dele para investir em Portugal. Não, o que nós precisamos é que ele, com a sua capacidade de intervenção a nível mundial, nos proporcione a entrada de novos investimentos estrangeiros a sério, quer em montante quer em importância de projectos, para o desenvolvimento acelerado do nosso País. A brincar, a brincar, depois de tudo o que Buffett já fez na vida, se calhar esta tarefa até seria interessante – endireitar um País que precisa de um milagre para crescer (estou de acordo com Silva Lopes, só que milagres não há!).
Era como se ficássemos com uma Agência Portuguesa para o Investimento nº.2, a juntar à que já existe no Porto, sendo esta outra informal, em Omaha, Nebraska, com um objectivo reforçado de captar negócios internacionais para o nosso país, pondo multinacionais a investir, grandes projectos a arrancar, massa cinzenta a ser aproveitada, o Governo a deixar de complicar, o Belmiro a aplaudir, … Uff!! A perspectiva não era má!
Então, um dia destes, poderíamos começar a esboçar um sorriso, ou mesmo, que diabo, um riso sereno para desenferrujar os músculos da cara, espantando esta tristeza e melancolia que quase nos abate.
Não me digam que não tinha piada, com mais ou menos hipérboles, arranjando a dose certa de realismo, não acham que isto tem mesmo de ser feito? É que, um ano destes, seremos muito provavelmente o 25º e último país da União Europeia e vamos continuar a ouvir uma história de um qualquer chefe político, de serviço na altura, a afiançar que lá para o ano 2043, estaremos de certeza perto da média da União (média essa que, entretanto, terá descido bastante com a entrada dos 10 novos países).
Não queremos isso, pois não? Eu, pelo contrário, já me vejo nesse outro futuro, onde ganharemos nova alma e uma personalidade revigorada, e onde, de tão lançados que estaremos, deixarão de ter importância muitas partes gagas da nossa classe política.
Num panorama desses, já ninguém se importaria que viesse para Presidente da nossa República, aquele senhor engenheiro que esteve a tentar ajudar o Lula a fazer política social no Brasil. E nós ralados!...
Um abraço e …
Espero as vossas empenhadas ideias para pôr de pé este sublime desígnio de convencer o Buffett (o engenheiro não é preciso convencer!). Tudo sob o lema que resumiria o nosso novo modo de ser: “Cuidado, vamos ser um País de sucesso!”
Comentador
Nota
Fica desde já prometido que um dia contarei, em traços gerais, a história da vida de Rose Blumkin. Posso adiantar que é uma vida extraordinária, vivida com determinação, verdade, profissionalismo e muito trabalho. Umas vezes comovente, outras vezes inacreditável, a sua vida pode considerar-se única e é com inveja que digo que ela esteve sempre, mas sempre, muito acima de pessoas normais como nós.
Não foi propriamente uma paixão louca, guiada pelo coração e alheia a tudo o resto. Muito menos se tratou de um amor à primeira vista. Mas poderá sem dúvida afirmar-se que, como muitas vezes acontece, foi o homem que tomou a iniciativa, que pacientemente a seguiu e, por fim, a convenceu. Esta é também uma ligação que triunfou, apesar de alguma oposição da família dela.
Aconteceu em 1983, no Nebraska, a Srª. Rose Blumkin tinha 90 anos e Warren Buffett estava a caminho de se tornar um dos homens mais ricos da América.
Quando, depois de longo estudo e acompanhamento, Buffett comprou a sua empresa de mobílias, a mais competitiva e rentável dos E.U.A. no seu ramo, a Srª. Blumkin, ainda detentora de 10% do capital, continuou muito naturalmente a trabalhar na empresa, no seu lugar de Presidente do Conselho de Administração, e disposta a imprimir-lhe a sua costumada e extraordinária dinâmica.
Como grande investidor de longo prazo, Warren Buffett detém inúmeras empresas muito lucrativas e de elevado crescimento. Actualmente, com duas dezenas de biliões de dólares em dinheiro para aplicar, ele não consegue encontrar activos que o possam realmente entusiasmar. Isso não é mais do que o reflexo de uma economia mundial ainda com muitas interrogações. Por um lado a falta de motivação, por outro o facto de o seu império empresarial quase andar por si próprio, faz quase ter pena do nosso amigo, sem ocupações suficientes para passar o tempo…
É exactamente esta a altura que Portugal deveria escolher para preparar o envio de uma delegação, com todos os poderes, para cativar este multibilionário, momentaneamente desincentivado, levando-o a interessar-se pelo problema económico-financeiro português, de forma a poder orientar-nos e criar uma estratégia para a nossa recuperação, que de outro modo se afigura muito problemática.
Na prática, o objectivo seria convencê-lo a tornar-se o consultor financeiro da República Portuguesa. Se ele alguma vez aceitasse, o seu preço nunca seria demasiado caro, disso poderíamos ter a certeza. Por outro lado, não estaria em causa o nosso interesse no dinheiro dele para investir em Portugal. Não, o que nós precisamos é que ele, com a sua capacidade de intervenção a nível mundial, nos proporcione a entrada de novos investimentos estrangeiros a sério, quer em montante quer em importância de projectos, para o desenvolvimento acelerado do nosso País. A brincar, a brincar, depois de tudo o que Buffett já fez na vida, se calhar esta tarefa até seria interessante – endireitar um País que precisa de um milagre para crescer (estou de acordo com Silva Lopes, só que milagres não há!).
Era como se ficássemos com uma Agência Portuguesa para o Investimento nº.2, a juntar à que já existe no Porto, sendo esta outra informal, em Omaha, Nebraska, com um objectivo reforçado de captar negócios internacionais para o nosso país, pondo multinacionais a investir, grandes projectos a arrancar, massa cinzenta a ser aproveitada, o Governo a deixar de complicar, o Belmiro a aplaudir, … Uff!! A perspectiva não era má!
Então, um dia destes, poderíamos começar a esboçar um sorriso, ou mesmo, que diabo, um riso sereno para desenferrujar os músculos da cara, espantando esta tristeza e melancolia que quase nos abate.
Não me digam que não tinha piada, com mais ou menos hipérboles, arranjando a dose certa de realismo, não acham que isto tem mesmo de ser feito? É que, um ano destes, seremos muito provavelmente o 25º e último país da União Europeia e vamos continuar a ouvir uma história de um qualquer chefe político, de serviço na altura, a afiançar que lá para o ano 2043, estaremos de certeza perto da média da União (média essa que, entretanto, terá descido bastante com a entrada dos 10 novos países).
Não queremos isso, pois não? Eu, pelo contrário, já me vejo nesse outro futuro, onde ganharemos nova alma e uma personalidade revigorada, e onde, de tão lançados que estaremos, deixarão de ter importância muitas partes gagas da nossa classe política.
Num panorama desses, já ninguém se importaria que viesse para Presidente da nossa República, aquele senhor engenheiro que esteve a tentar ajudar o Lula a fazer política social no Brasil. E nós ralados!...
Um abraço e …
Espero as vossas empenhadas ideias para pôr de pé este sublime desígnio de convencer o Buffett (o engenheiro não é preciso convencer!). Tudo sob o lema que resumiria o nosso novo modo de ser: “Cuidado, vamos ser um País de sucesso!”
Comentador
Nota
Fica desde já prometido que um dia contarei, em traços gerais, a história da vida de Rose Blumkin. Posso adiantar que é uma vida extraordinária, vivida com determinação, verdade, profissionalismo e muito trabalho. Umas vezes comovente, outras vezes inacreditável, a sua vida pode considerar-se única e é com inveja que digo que ela esteve sempre, mas sempre, muito acima de pessoas normais como nós.
terça-feira, novembro 04, 2003
Warren Buffett e Nós
Warren Buffett é o segundo americano mais rico, logo a seguir a Bill Gates. A sua fortuna foi conseguida ao longo do tempo, numa sucessão de êxitos financeiros muito consistentes e de grande amplitude, intercalada com raros insucessos.
Muitos associam-no aos grandes especuladores dos mercados, à semelhança de um George Soros, por exemplo. Nada mais errado! Warren Buffett é um investidor de muito longo prazo, que compra grandes lotes de acções, ou de outros activos, com o objectivo de os deter por um período de tempo indeterminado, se possível para o resto da vida, desde que mantenham uma rentabilidade adequada.
Ele tem deixado de ganhar muito dinheiro ao não investir próximo do pico das subidas mais exuberantes. Isso aconteceu em 1998/1999 e está de novo a ocorrer nesta altura, em que tem várias dezenas de biliões de dólares em cash sem nenhum entusiasmo para os aplicar.
Um dos seus princípios básicos é “tentar ser receoso quando outros são gananciosos, e ganancioso só quando os outros têm receio”. Parece fácil, mas é extremamente difícil.
É importante referir que, desde 1970, todos os seus investimentos são efectuados através da sua holding Berkshire Hathaway, baseando a sua estratégia em investir em empresas sólidas e com boa taxa de crescimento em cuja actividade acredita após um estudo exaustivo. Atendendo ao enorme valor dos activos de que dispõe, a geração de cash flow da holding de que é o principal accionista, tem uma dimensão exorbitante.
Transaccionar activos cujo conhecimento dominamos, após estudo profundo, não seguindo os exageros da multidão!... Estes princípios, salvaguardadas as devidas proporções, podem e devem ser aplicados aos investimentos de qualquer um de nós.
Claro que Warren Buffett também efectua operações especulativas de curto prazo, nos mais diversos activos, as quais no entanto constituem uma ínfima percentagem da sua carteira de aplicações.
Independentemente do prazo normal de trading/investimento de cada um de nós, é bom não esquecer ainda um outro dos seus princípios, este especialmente dirigido às acções: “se não estiver disposto a conservar uma acção por 10 anos, não pense sequer em tê-la por 10 minutos”.
Portanto, onde julgávamos ver um especulador feroz, de curto prazo, atento a toda e qualquer oportunidade, manipulador de empresas, vamos antes encontrar um verdadeiro investidor de enorme dimensão, bastante cauteloso, comprador de participações em multinacionais ou da totalidade do capital de outras empresas de grande rentabilidade, com o objectivo de as manter e desenvolver.
Muitas vezes cometemos um dos erros mais graves que um investidor/especulador normal deverá tentar evitar (excluindo o daytyrading, que é um caso especial). É o de andarmos atrás de variações de muito curto prazo, transaccionando com perdas repetidas, ou não deixando correr os lucros, quando deveremos “ignorar flutuações a curto prazo, excepto se elas invalidarem as expectativas de médio/longo prazo”.
Este é um erro que Warren Buffett nunca comete. Claro que com o dinheiro que ele tem, poderia ter uns devaneios e entrar mais na zona de risco. Mas o negócio dele não é perder dinheiro! Nós, com o dinheiro que temos, é que não podemos mesmo facilitar e fazer experiências, só para ver se dá. Mas para que o risco não venha ter connosco quando não é convidado, precisaremos de fazer uma boa preparação e de investigar e estudar devidamente todos os activos que negociamos.
Warren Buffett é o segundo americano mais rico, logo a seguir a Bill Gates. A sua fortuna foi conseguida ao longo do tempo, numa sucessão de êxitos financeiros muito consistentes e de grande amplitude, intercalada com raros insucessos.
Muitos associam-no aos grandes especuladores dos mercados, à semelhança de um George Soros, por exemplo. Nada mais errado! Warren Buffett é um investidor de muito longo prazo, que compra grandes lotes de acções, ou de outros activos, com o objectivo de os deter por um período de tempo indeterminado, se possível para o resto da vida, desde que mantenham uma rentabilidade adequada.
Ele tem deixado de ganhar muito dinheiro ao não investir próximo do pico das subidas mais exuberantes. Isso aconteceu em 1998/1999 e está de novo a ocorrer nesta altura, em que tem várias dezenas de biliões de dólares em cash sem nenhum entusiasmo para os aplicar.
Um dos seus princípios básicos é “tentar ser receoso quando outros são gananciosos, e ganancioso só quando os outros têm receio”. Parece fácil, mas é extremamente difícil.
É importante referir que, desde 1970, todos os seus investimentos são efectuados através da sua holding Berkshire Hathaway, baseando a sua estratégia em investir em empresas sólidas e com boa taxa de crescimento em cuja actividade acredita após um estudo exaustivo. Atendendo ao enorme valor dos activos de que dispõe, a geração de cash flow da holding de que é o principal accionista, tem uma dimensão exorbitante.
Transaccionar activos cujo conhecimento dominamos, após estudo profundo, não seguindo os exageros da multidão!... Estes princípios, salvaguardadas as devidas proporções, podem e devem ser aplicados aos investimentos de qualquer um de nós.
Claro que Warren Buffett também efectua operações especulativas de curto prazo, nos mais diversos activos, as quais no entanto constituem uma ínfima percentagem da sua carteira de aplicações.
Independentemente do prazo normal de trading/investimento de cada um de nós, é bom não esquecer ainda um outro dos seus princípios, este especialmente dirigido às acções: “se não estiver disposto a conservar uma acção por 10 anos, não pense sequer em tê-la por 10 minutos”.
Portanto, onde julgávamos ver um especulador feroz, de curto prazo, atento a toda e qualquer oportunidade, manipulador de empresas, vamos antes encontrar um verdadeiro investidor de enorme dimensão, bastante cauteloso, comprador de participações em multinacionais ou da totalidade do capital de outras empresas de grande rentabilidade, com o objectivo de as manter e desenvolver.
Muitas vezes cometemos um dos erros mais graves que um investidor/especulador normal deverá tentar evitar (excluindo o daytyrading, que é um caso especial). É o de andarmos atrás de variações de muito curto prazo, transaccionando com perdas repetidas, ou não deixando correr os lucros, quando deveremos “ignorar flutuações a curto prazo, excepto se elas invalidarem as expectativas de médio/longo prazo”.
Este é um erro que Warren Buffett nunca comete. Claro que com o dinheiro que ele tem, poderia ter uns devaneios e entrar mais na zona de risco. Mas o negócio dele não é perder dinheiro! Nós, com o dinheiro que temos, é que não podemos mesmo facilitar e fazer experiências, só para ver se dá. Mas para que o risco não venha ter connosco quando não é convidado, precisaremos de fazer uma boa preparação e de investigar e estudar devidamente todos os activos que negociamos.
domingo, outubro 26, 2003
A Quimera do Turismo
Estar de férias na Jamaica!
Este é mesmo o sonho de muita gente, a esperança de visita a uma ilha de praias belas e tempo maravilhoso, de resorts de luxo e floresta tropical de muitos tons.
Um destino de revista, uma terra quente e hospitaleira, sob o som de música alegre e ritmo forte, ela é também uma fotografia viva com as cores da felicidade.
Ouvindo o gelo a vogar no copo longo de rum com cola, embalo-me no doce sussurro deste mar de cor impossível, no intenso prazer deste sol e desta brisa doce que me abriga.
Esta Jamaica, que vejo sob os olhos fascinados de turista, parece um lugar onde gostaria de ficar para sempre, numa vida distendida e calma, com um trabalho livre e ocasional, quando houvesse vontade.
Mas façamos um esforço de análise, abandonando as águas cálidas de Montego Bay. A Jamaica é um país que vive principalmente do turismo, embora tenha também boas produções de bauxite, alumínio e cana-de-açúcar. Estas fontes de rendimento são indispensáveis para a economia da ilha, que tem um défice comercial crescente, e que importa a maior parte das suas necessidades de consumo e de equipamento.
Trabalha, directa ou indirectamente no turismo, uma grande parte da população activa do país. Mesmo com bastantes unidades de luxo, constata-se facilmente que a esmagadora maioria dos trabalhadores do sector turístico efectua funções muito pouco qualificadas ou de reduzido valor acrescentado. Para além da extracção mineira e de um sector agrícola reduzido, os restantes sectores industriais e de serviços têm uma importância secundária.
Com este pequeno retrato, a que se junta uma taxa de desemprego a rondar os 15%, não é difícil aceitar que a Jamaica esteja bem dentro do terceiro mundo, apresentando um PIB per capita de cerca de 3.900 dólares anuais.
Se prestarmos atenção às condições da vida corrente, veremos que as estradas são más, há muitas falhas de electricidade e o sistema de saúde é insuficiente. Pior do que tudo, parece haver uma atitude passiva e de aversão à mudança.
Estamos assim perante um país que, tendo grandes potencialidades turísticas e vivendo há décadas praticamente dependente do desenvolvimento desse sector económico, só conseguiu atingir um nível de desenvolvimento que teremos de considerar muito modesto. Com efeito, com uma população de 2,9 milhões de pessoas, o seu PIB per capita, acima referido, é bastante baixo, mesmo quando comparado com outros pequenos países da América do Sul e Central, como por exemplo a Costa Rica (8.500 dólares de rendimento per capita) e o Uruguai (7.800 dólares).
Se alongarmos a nossa vista pelo mundo e reflectirmos um pouco, poderemos chegar a algumas conclusões simples, que nos permitirão começar a ponderar, com outros olhos, a estratégia de desenvolvimento a definir para Portugal, mais realistas e evitando análises abstractas que nos farão tropeçar como país por mais algumas dolorosas décadas. Por exemplo, não existe nenhum país, em todo o planeta, que se tenha desenvolvido a sério pela acção determinante do turismo. Por outro lado, poderemos também dizer que o turismo não é nunca um sector realmente decisivo em nenhum dos cerca de 40 países mais desenvolvidos.
E percebe-se porquê. Muitos dos projectos turísticos têm, por vezes, alguma dificuldade em conseguir um razoável retorno dos investimentos efectuados. Só uma pequena franja tem real capacidade de ter um efeito gerador de elevados rendimentos. Os grandes casinos, que pertencem a este último grupo e são até os que maiores rendimentos proporcionam, têm apesar disso um potencial de desenvolvimento limitado. E o nosso País até já está bem colocado nessa área, pelo que os outros 2 ou 3 novos casinos já planeados certamente esgotarão (ou ultrapassarão) as possibilidades da procura respectiva.
Está fora de causa negar a importância do turismo em Portugal, o qual deverá ser incrementado com investimentos cada vez de maior qualidade. O que tem de ser contestado frontalmente é a ideia que, no futuro, o turismo irá desempenhar o papel de motor do desenvolvimento económico português.
Uma discussão sobre este tema será fundamental para o nosso país, dado que está a ser falada, a vários níveis, a escolha do turismo como objectivo principal da nossa estratégia de desenvolvimento.
Estar de férias na Jamaica!
Este é mesmo o sonho de muita gente, a esperança de visita a uma ilha de praias belas e tempo maravilhoso, de resorts de luxo e floresta tropical de muitos tons.
Um destino de revista, uma terra quente e hospitaleira, sob o som de música alegre e ritmo forte, ela é também uma fotografia viva com as cores da felicidade.
Ouvindo o gelo a vogar no copo longo de rum com cola, embalo-me no doce sussurro deste mar de cor impossível, no intenso prazer deste sol e desta brisa doce que me abriga.
Esta Jamaica, que vejo sob os olhos fascinados de turista, parece um lugar onde gostaria de ficar para sempre, numa vida distendida e calma, com um trabalho livre e ocasional, quando houvesse vontade.
Mas façamos um esforço de análise, abandonando as águas cálidas de Montego Bay. A Jamaica é um país que vive principalmente do turismo, embora tenha também boas produções de bauxite, alumínio e cana-de-açúcar. Estas fontes de rendimento são indispensáveis para a economia da ilha, que tem um défice comercial crescente, e que importa a maior parte das suas necessidades de consumo e de equipamento.
Trabalha, directa ou indirectamente no turismo, uma grande parte da população activa do país. Mesmo com bastantes unidades de luxo, constata-se facilmente que a esmagadora maioria dos trabalhadores do sector turístico efectua funções muito pouco qualificadas ou de reduzido valor acrescentado. Para além da extracção mineira e de um sector agrícola reduzido, os restantes sectores industriais e de serviços têm uma importância secundária.
Com este pequeno retrato, a que se junta uma taxa de desemprego a rondar os 15%, não é difícil aceitar que a Jamaica esteja bem dentro do terceiro mundo, apresentando um PIB per capita de cerca de 3.900 dólares anuais.
Se prestarmos atenção às condições da vida corrente, veremos que as estradas são más, há muitas falhas de electricidade e o sistema de saúde é insuficiente. Pior do que tudo, parece haver uma atitude passiva e de aversão à mudança.
Estamos assim perante um país que, tendo grandes potencialidades turísticas e vivendo há décadas praticamente dependente do desenvolvimento desse sector económico, só conseguiu atingir um nível de desenvolvimento que teremos de considerar muito modesto. Com efeito, com uma população de 2,9 milhões de pessoas, o seu PIB per capita, acima referido, é bastante baixo, mesmo quando comparado com outros pequenos países da América do Sul e Central, como por exemplo a Costa Rica (8.500 dólares de rendimento per capita) e o Uruguai (7.800 dólares).
Se alongarmos a nossa vista pelo mundo e reflectirmos um pouco, poderemos chegar a algumas conclusões simples, que nos permitirão começar a ponderar, com outros olhos, a estratégia de desenvolvimento a definir para Portugal, mais realistas e evitando análises abstractas que nos farão tropeçar como país por mais algumas dolorosas décadas. Por exemplo, não existe nenhum país, em todo o planeta, que se tenha desenvolvido a sério pela acção determinante do turismo. Por outro lado, poderemos também dizer que o turismo não é nunca um sector realmente decisivo em nenhum dos cerca de 40 países mais desenvolvidos.
E percebe-se porquê. Muitos dos projectos turísticos têm, por vezes, alguma dificuldade em conseguir um razoável retorno dos investimentos efectuados. Só uma pequena franja tem real capacidade de ter um efeito gerador de elevados rendimentos. Os grandes casinos, que pertencem a este último grupo e são até os que maiores rendimentos proporcionam, têm apesar disso um potencial de desenvolvimento limitado. E o nosso País até já está bem colocado nessa área, pelo que os outros 2 ou 3 novos casinos já planeados certamente esgotarão (ou ultrapassarão) as possibilidades da procura respectiva.
Está fora de causa negar a importância do turismo em Portugal, o qual deverá ser incrementado com investimentos cada vez de maior qualidade. O que tem de ser contestado frontalmente é a ideia que, no futuro, o turismo irá desempenhar o papel de motor do desenvolvimento económico português.
Uma discussão sobre este tema será fundamental para o nosso país, dado que está a ser falada, a vários níveis, a escolha do turismo como objectivo principal da nossa estratégia de desenvolvimento.
terça-feira, outubro 21, 2003
A Jamaica da Europa?
Vagamente sonolento, olhando o horizonte sob o telheiro de casa, o meu pensamento deambula por diversas situações desconexas, contraditórias e absurdas. Neste domingo chuvoso, fica paradoxalmente mais claro, que o nosso País está cada dia que passa mais bizarro, menos pujante, numa defensiva triste, economicamente em baixo, embora sabendo que tem potencialidades para mais, mas que não as desenvolve.
A nossa vida pessoal e colectiva deve ser positiva e afirmativa. O tempo urge e Portugal precisa realmente de se encontrar e fazer pela vida.
Picasso dizia que não sabia o que era o génio nem quando ele se manifestava. Tinha era a certeza que, se o tal génio aparecesse, o apanharia sempre a trabalhar. Talvez seja o que nos falta, não o génio, mas trabalhar com determinação e com verdadeiros objectivos, porque assim talvez o tal… digamos talento apareça. Ou, simplesmente, a nossa capacidade se manifeste.
Enquanto, junto a mim, os meus dois cães roem deleitados os seus ossos, dei comigo a pensar que é importante desligar do ambiente negativo que nos rodeia a todos e trilhar com pé firme o caminho que achamos mais promissor. Por mim, já decidi: vou dar o meu melhor naquilo que gosto e sei fazer e vou recusar o espírito de inferioridade, de divergência que o nosso País assume, por exemplo, em relação a toda a Europa comunitária. Não, eu não quero esperar por 2006 para começar talvez a convergir!
Claro que, com os empresários que temos, ainda por cima mal habituados pelo Estado, não é fácil apostar numa direcção segura de melhoria de competência e inovação empresarial. Ganhar uns milhões aqui e investir outros milhões ali, não chega. É necessária uma verdadeira capacidade de intervenção em sectores e indústrias que realmente aumentem o nosso produto e melhorem os nossos rendimentos. Manter, ao arrepio das forças de mercado, os principais centros de decisão empresarial em mãos portuguesas é, portanto, não só uma impossibilidade mas também uma insensatez.
O que o País precisa é de captar investimento estrangeiro a sério, de elevada tecnicidade, com grande valor acrescentado e em sectores que permitam evolução tecnológica e crescimento. Penso que não interessa muito ter inúmeros processos de investimento estrangeiro em análise burocrática, precisamos é de 3 ou 4 projectos de elevada dimensão e tecnicidade, o que deveria constituir um verdadeiro objectivo nacional.
E os sectores que têm futuro e em que já somos bons, devem também ser desenvolvidos, sem deixar de acautelar devidamente as particularidades regionais.
Quanto ao Turismo, essa nova quimera portuguesa, tão em moda e tão em voga, para que não se torne o desencanto das próximas décadas, não vamos pensar que será a galinha dos ovos de ouro. Porque não vai ser. Claro que é um sector muito importante, a vários níveis, que espero que cresça todos os anos. Mas nunca pode ser a base da nossa economia. Não me digam que queremos ser a Jamaica da Europa!?
Vagamente sonolento, olhando o horizonte sob o telheiro de casa, o meu pensamento deambula por diversas situações desconexas, contraditórias e absurdas. Neste domingo chuvoso, fica paradoxalmente mais claro, que o nosso País está cada dia que passa mais bizarro, menos pujante, numa defensiva triste, economicamente em baixo, embora sabendo que tem potencialidades para mais, mas que não as desenvolve.
A nossa vida pessoal e colectiva deve ser positiva e afirmativa. O tempo urge e Portugal precisa realmente de se encontrar e fazer pela vida.
Picasso dizia que não sabia o que era o génio nem quando ele se manifestava. Tinha era a certeza que, se o tal génio aparecesse, o apanharia sempre a trabalhar. Talvez seja o que nos falta, não o génio, mas trabalhar com determinação e com verdadeiros objectivos, porque assim talvez o tal… digamos talento apareça. Ou, simplesmente, a nossa capacidade se manifeste.
Enquanto, junto a mim, os meus dois cães roem deleitados os seus ossos, dei comigo a pensar que é importante desligar do ambiente negativo que nos rodeia a todos e trilhar com pé firme o caminho que achamos mais promissor. Por mim, já decidi: vou dar o meu melhor naquilo que gosto e sei fazer e vou recusar o espírito de inferioridade, de divergência que o nosso País assume, por exemplo, em relação a toda a Europa comunitária. Não, eu não quero esperar por 2006 para começar talvez a convergir!
Claro que, com os empresários que temos, ainda por cima mal habituados pelo Estado, não é fácil apostar numa direcção segura de melhoria de competência e inovação empresarial. Ganhar uns milhões aqui e investir outros milhões ali, não chega. É necessária uma verdadeira capacidade de intervenção em sectores e indústrias que realmente aumentem o nosso produto e melhorem os nossos rendimentos. Manter, ao arrepio das forças de mercado, os principais centros de decisão empresarial em mãos portuguesas é, portanto, não só uma impossibilidade mas também uma insensatez.
O que o País precisa é de captar investimento estrangeiro a sério, de elevada tecnicidade, com grande valor acrescentado e em sectores que permitam evolução tecnológica e crescimento. Penso que não interessa muito ter inúmeros processos de investimento estrangeiro em análise burocrática, precisamos é de 3 ou 4 projectos de elevada dimensão e tecnicidade, o que deveria constituir um verdadeiro objectivo nacional.
E os sectores que têm futuro e em que já somos bons, devem também ser desenvolvidos, sem deixar de acautelar devidamente as particularidades regionais.
Quanto ao Turismo, essa nova quimera portuguesa, tão em moda e tão em voga, para que não se torne o desencanto das próximas décadas, não vamos pensar que será a galinha dos ovos de ouro. Porque não vai ser. Claro que é um sector muito importante, a vários níveis, que espero que cresça todos os anos. Mas nunca pode ser a base da nossa economia. Não me digam que queremos ser a Jamaica da Europa!?
domingo, outubro 19, 2003
Vem aí a Retoma?
Relativamente aos “leading indicators” (sem esquecer os “misleading indicators”…), temos de estar sempre alerta pois, embora uns tenham mais importância do que outros, são muitas vezes os menos considerados que conseguem dar preciosas indicações sobre a situação económica global.
Penso que esta é a altura certa de abordar o cobre, o qual está nesta altura numa espiral de subida fortíssima que pode confirmar o prelúdio de uma efectiva recuperação da economia mundial. Realmente, o cobre é um dos primeiros elos da cadeia industrial e o aumento do seu consumo é muito relevante.
No entanto, não há uma completa relação de causa-efeito, constitui mais um sinal avançado, não sendo de espantar que a retoma da economia se continue a sentir cada vez mais, enquanto as cotações do cobre podem começar a corrigir. Digamos que o cobre deu o aviso, mesmo que a sua cotação possa de novo ter uma grande volatilidade, sem prejuízo de, no médio prazo, haver campo para mais subidas. Por outro lado, não nos esqueçamos que a cotação do cobre é expressa em USD, e se for convertida em euros o seu preço ainda não atingiu os valores do princípio do ano passado.
Uma próxima correcção poderá assim acontecer porque, numa situação como a actual, tem sempre muita influência nos preços a eventual reabertura de algumas minas anteriormente encerradas ou com actividade reduzida. De igual modo, há uma grande tendência para serem efectuadas compras especulativas, fazendo aumentar a cotação para além do razoável. Isto sem prejuízo de se considerar efectivamente sustentado o aumento de consumo dos principais compradores mundiais (com a China à cabeça).
Aliás, esta minha crónica sobre a ligação do cobre à retoma económica, não pretende analisar as condições de trading deste metal, que é altamente desaconselhável e perigoso para pequenos e médios investidores mais ou menos amadores, como todos nós somos.
Mas reforço a ideia de acompanharem a evolução das cotações do cobre, atendendo à sua característica de auxiliar a análise sobre a evolução da conjuntura económica internacional.
Para uma adequada perspectiva, a seguir indico os dados actuais mais salientes:
a) O máximo atingido esta semana – 90.20 cts/lb, constitui também o máximo dos últimos 3 anos.
b) Nos últimos 6 meses, a cotação do cobre subiu 27%.
c) O preço mínimo dos últimos 10 anos - 60.50 cts/lb, foi estabelecido no início de Novembro de 2001. A partir daí, pode dizer-se que o cobre está em tendência ascendente de médio prazo, acentuada a partir de Outubro de 2002.
Uma nota final sobre a retoma económica global. Parece não haver dúvidas de que ela está já em curso. No entanto, é fundamental acompanhar outros indicadores que traduzam a “qualidade” desta retoma. Com efeito, a carga desta recuperação ainda está grandemente baseada no aumento do consumo por via de obtenção de crédito, sendo a taxa de poupança baixíssima em praticamente todos os países, excepto na Ásia. Um maior equilíbrio neste capítulo será indispensável a médio prazo.
Relativamente aos “leading indicators” (sem esquecer os “misleading indicators”…), temos de estar sempre alerta pois, embora uns tenham mais importância do que outros, são muitas vezes os menos considerados que conseguem dar preciosas indicações sobre a situação económica global.
Penso que esta é a altura certa de abordar o cobre, o qual está nesta altura numa espiral de subida fortíssima que pode confirmar o prelúdio de uma efectiva recuperação da economia mundial. Realmente, o cobre é um dos primeiros elos da cadeia industrial e o aumento do seu consumo é muito relevante.
No entanto, não há uma completa relação de causa-efeito, constitui mais um sinal avançado, não sendo de espantar que a retoma da economia se continue a sentir cada vez mais, enquanto as cotações do cobre podem começar a corrigir. Digamos que o cobre deu o aviso, mesmo que a sua cotação possa de novo ter uma grande volatilidade, sem prejuízo de, no médio prazo, haver campo para mais subidas. Por outro lado, não nos esqueçamos que a cotação do cobre é expressa em USD, e se for convertida em euros o seu preço ainda não atingiu os valores do princípio do ano passado.
Uma próxima correcção poderá assim acontecer porque, numa situação como a actual, tem sempre muita influência nos preços a eventual reabertura de algumas minas anteriormente encerradas ou com actividade reduzida. De igual modo, há uma grande tendência para serem efectuadas compras especulativas, fazendo aumentar a cotação para além do razoável. Isto sem prejuízo de se considerar efectivamente sustentado o aumento de consumo dos principais compradores mundiais (com a China à cabeça).
Aliás, esta minha crónica sobre a ligação do cobre à retoma económica, não pretende analisar as condições de trading deste metal, que é altamente desaconselhável e perigoso para pequenos e médios investidores mais ou menos amadores, como todos nós somos.
Mas reforço a ideia de acompanharem a evolução das cotações do cobre, atendendo à sua característica de auxiliar a análise sobre a evolução da conjuntura económica internacional.
Para uma adequada perspectiva, a seguir indico os dados actuais mais salientes:
a) O máximo atingido esta semana – 90.20 cts/lb, constitui também o máximo dos últimos 3 anos.
b) Nos últimos 6 meses, a cotação do cobre subiu 27%.
c) O preço mínimo dos últimos 10 anos - 60.50 cts/lb, foi estabelecido no início de Novembro de 2001. A partir daí, pode dizer-se que o cobre está em tendência ascendente de médio prazo, acentuada a partir de Outubro de 2002.
Uma nota final sobre a retoma económica global. Parece não haver dúvidas de que ela está já em curso. No entanto, é fundamental acompanhar outros indicadores que traduzam a “qualidade” desta retoma. Com efeito, a carga desta recuperação ainda está grandemente baseada no aumento do consumo por via de obtenção de crédito, sendo a taxa de poupança baixíssima em praticamente todos os países, excepto na Ásia. Um maior equilíbrio neste capítulo será indispensável a médio prazo.
quinta-feira, outubro 16, 2003
A Nossa “Street”
Actualmente temos a sorte, a que já não atribuímos o devido valor, de poder concretizar operações de bolsa em poucos segundos, mesmo estando em Lisboa a transaccionar noutras praças, a milhares de quilómetros de distância. De acordo com o conhecimento, necessidade e capacidade financeira de cada um, são muitos os activos que se podem movimentar através do nosso computador pessoal. Neste nosso tempo, tudo isso passou a ser uma quase necessidade básica, a que a tecnologia dá satisfação num ápice.
Ainda que eu seja um investidor calmo, com as posições cobertas de diversas formas, não necessitando de um acompanhamento permanente, não dispenso assistir durante alguns minutos do dia, à evolução do mercado on-line, acompanhado de informações e notícias actualizadas. Sendo um trader de fim do dia, isso permite-me fazer a minha vida “normal”, estabelecendo a estratégia mais conveniente para o dia seguinte.
Mas as coisas nem sempre foram assim! A modernização dos mercados acompanhou naturalmente a enorme evolução que existiu nos últimos séculos em todos os domínios. É, pois, muito interessante ter um conhecimento, ainda que muito superficial, do que se passou em Portugal nos primórdios da Bolsa.
Ontem, estive a folhear uma obra bastante interessante sobre as origens da nossa bolsa. Fiquei a saber que, pelo menos a partir do século XIV, a Rua Nova, “a mais extensa e larga de todas as artérias de Lisboa” (mais ou menos onde é agora a Rua do Comércio), foi efectivamente o centro de negócios de Lisboa, sendo passagem obrigatória de todos os estrangeiros que nos visitavam, especialmente em negócios. Pode dizer-se que, a partir do início do século XVI, se encontram ali as origens da Bolsa de Lisboa, com um local próprio para os corretores e um espaço delimitado para a transacção de todas as operações financeiras da altura, que envolviam grande movimento de compradores e vendedores.
Mais tarde, muitos portugueses estabeleceram-se em Amesterdão, cuja Bolsa era a mais importante nos finais do século XVII, onde foram identificados com as práticas especulativas em mercadorias e, em especial, acções. Em escritos da época, é referido que esses portugueses dispunham de boas relações internacionais e uma grande capacidade de antecipação fruto da obtenção rápida de informações.
Mas a intervenção portuguesa na Bolsa de Amesterdão tinha sólidas bases. Para o avaliar basta dizer que ilustres emigrantes portugueses, como José da Veiga e Isaac de Pinto, escreveram obras fundamentais, atendendo à época da sua publicação, respectivamente sobre operações de bolsa sobre acções, especialmente operações a prazo, e sobre o mercado da dívida pública e a teoria das finanças. É caso para dizer: é obra!!
Não percamos pois a esperança de ver surgir no actual panorama bolsístico internacional, algum português da envergadura de um António Damásio, por exemplo, que investigue e escreva sobre a vertente psicológica dos mercados financeiros.
Voltando à Bolsa de Lisboa, após o terramoto de 1755, a sua localização passou para o Torreão do lado nascente da Praça do Comércio, de onde só saiu em1994. Salvo curtos períodos de maior movimento, o mercado sempre foi extremamente limitado e cada vez menos inovador.
A evolução posterior é, obviamente, bem conhecida de todos. Num mundo alargado pela facilidade das comunicações, os mercados financeiros são os que maior proveito tiram da globalização, e a pequena dimensão da bolsa portuguesa esbate-se nos actuais sistemas internacionais de negociação em que nos estamos a integrar.
Voltemos assim ao presente, pois há muita informação para acompanhar e operações para concretizar, que só esperam um gesto nosso, uma decisão, um clic no botão do PC.
Actualmente temos a sorte, a que já não atribuímos o devido valor, de poder concretizar operações de bolsa em poucos segundos, mesmo estando em Lisboa a transaccionar noutras praças, a milhares de quilómetros de distância. De acordo com o conhecimento, necessidade e capacidade financeira de cada um, são muitos os activos que se podem movimentar através do nosso computador pessoal. Neste nosso tempo, tudo isso passou a ser uma quase necessidade básica, a que a tecnologia dá satisfação num ápice.
Ainda que eu seja um investidor calmo, com as posições cobertas de diversas formas, não necessitando de um acompanhamento permanente, não dispenso assistir durante alguns minutos do dia, à evolução do mercado on-line, acompanhado de informações e notícias actualizadas. Sendo um trader de fim do dia, isso permite-me fazer a minha vida “normal”, estabelecendo a estratégia mais conveniente para o dia seguinte.
Mas as coisas nem sempre foram assim! A modernização dos mercados acompanhou naturalmente a enorme evolução que existiu nos últimos séculos em todos os domínios. É, pois, muito interessante ter um conhecimento, ainda que muito superficial, do que se passou em Portugal nos primórdios da Bolsa.
Ontem, estive a folhear uma obra bastante interessante sobre as origens da nossa bolsa. Fiquei a saber que, pelo menos a partir do século XIV, a Rua Nova, “a mais extensa e larga de todas as artérias de Lisboa” (mais ou menos onde é agora a Rua do Comércio), foi efectivamente o centro de negócios de Lisboa, sendo passagem obrigatória de todos os estrangeiros que nos visitavam, especialmente em negócios. Pode dizer-se que, a partir do início do século XVI, se encontram ali as origens da Bolsa de Lisboa, com um local próprio para os corretores e um espaço delimitado para a transacção de todas as operações financeiras da altura, que envolviam grande movimento de compradores e vendedores.
Mais tarde, muitos portugueses estabeleceram-se em Amesterdão, cuja Bolsa era a mais importante nos finais do século XVII, onde foram identificados com as práticas especulativas em mercadorias e, em especial, acções. Em escritos da época, é referido que esses portugueses dispunham de boas relações internacionais e uma grande capacidade de antecipação fruto da obtenção rápida de informações.
Mas a intervenção portuguesa na Bolsa de Amesterdão tinha sólidas bases. Para o avaliar basta dizer que ilustres emigrantes portugueses, como José da Veiga e Isaac de Pinto, escreveram obras fundamentais, atendendo à época da sua publicação, respectivamente sobre operações de bolsa sobre acções, especialmente operações a prazo, e sobre o mercado da dívida pública e a teoria das finanças. É caso para dizer: é obra!!
Não percamos pois a esperança de ver surgir no actual panorama bolsístico internacional, algum português da envergadura de um António Damásio, por exemplo, que investigue e escreva sobre a vertente psicológica dos mercados financeiros.
Voltando à Bolsa de Lisboa, após o terramoto de 1755, a sua localização passou para o Torreão do lado nascente da Praça do Comércio, de onde só saiu em1994. Salvo curtos períodos de maior movimento, o mercado sempre foi extremamente limitado e cada vez menos inovador.
A evolução posterior é, obviamente, bem conhecida de todos. Num mundo alargado pela facilidade das comunicações, os mercados financeiros são os que maior proveito tiram da globalização, e a pequena dimensão da bolsa portuguesa esbate-se nos actuais sistemas internacionais de negociação em que nos estamos a integrar.
Voltemos assim ao presente, pois há muita informação para acompanhar e operações para concretizar, que só esperam um gesto nosso, uma decisão, um clic no botão do PC.
domingo, outubro 12, 2003
Os Ministros ganham bem?
Fim de semana passado a descansar, a pôr algumas leituras em dia e a fugir com bastante sucesso das notícias dos nossos telejornais. Todos sabem ao que me refiro. O problema, claro, não são as notícias, mas o martelar infindável dos nossos “agentes” políticos de todos os partidos que, em vez de estarem calados a trabalhar ou a repousar, a bom recato, teimam em opinar e marcar posição a torto e a direito. Para, através da comunicação social, mostrar que existem. Mas que existência tão medíocre e pardacenta, palavrosa e primária!
Voltando ao fim de semana, ouvi e li algumas coisas interessantes. Em primeiro lugar, na sua crónica no DNA de sábado, Eduardo Barroso escreveu sobre o nível de vencimentos dos políticos e da impossibilidade que ele teria em aceitar qualquer eventual cargo no governo, pela exiguidade da retribuição que decerto o atiraria para a falência.
Mas antes do jantar de sábado e no meio de conversas cruzadas, veio-me ao ouvido o final do programa televisivo de José Hermano Saraiva, em que abordava a figura de Fernandes Thomaz, líder do executivo do nosso País após a revolução de 1822, que não quis receber qualquer compensação monetária pelo seu cargo, vindo a morrer … não dá mesmo para acreditar!, vindo a morrer…de fome, exactamente por não ter fortuna pessoal e não dizer a ninguém que estava sem dinheiro!
É realmente de pasmar, os mistérios que a vida tem e quais as respostas que devemos dar a perguntas que parecem simples: o que é a honra?, o que é o civismo?, de que forma se deve servir o país?
Nos tempos de hoje, não temos em Portugal pessoas que, sendo milionárias, tenham a capacidade, o desejo, ou a oportunidade de servir o País, em qualquer cargo político de topo. Não digo que fosse a solução ideal, dado que mesmo com excelente situação financeira, qualquer pessoa tem interesses particulares, económicos, sociais e políticos, que não a tornam só por esse facto mais isenta, nem melhor preparada, unicamente mais independente… financeiramente.
Então só temos duas categorias principais de pessoas para ocupar cargos públicos: os de carreira exclusivamente partidária, que nunca se destacaram em nada de especial e os (poucos) de maior craveira, que têm capacidades especiais e credibilidade pessoal a nível do país. Destes últimos, não temos ouvido, até agora, grandes queixas relativamente às remunerações para cargos governamentais.
Mas não teremos perdido muita gente de valor ao longo dos anos, e não estaremos a perder agora outros, que nem põem a hipótese de ocupar cargos públicos de topo, mesmo de forma transitória, por motivos financeiros?
O problema não tem solução a curto prazo. Quem decidiria sobre pagamentos diferenciados muito mais elevado a determinadas estrela políticas, aos “Figos” da governação? Como teria de ser sempre uma decisão casuística, com base num mero quadro legal que o permitisse, não se poderiam evitar eventuais arbitrariedades, implicando a possibilidade de arranjar gato por lebre.
Ficamos então como estamos, sem estrelas e sem grandes perspectivas, cada vez mais afastados dos políticos, esses eternos protagonistas de noticiários e manchetes.
Pobres protagonistas…
Fim de semana passado a descansar, a pôr algumas leituras em dia e a fugir com bastante sucesso das notícias dos nossos telejornais. Todos sabem ao que me refiro. O problema, claro, não são as notícias, mas o martelar infindável dos nossos “agentes” políticos de todos os partidos que, em vez de estarem calados a trabalhar ou a repousar, a bom recato, teimam em opinar e marcar posição a torto e a direito. Para, através da comunicação social, mostrar que existem. Mas que existência tão medíocre e pardacenta, palavrosa e primária!
Voltando ao fim de semana, ouvi e li algumas coisas interessantes. Em primeiro lugar, na sua crónica no DNA de sábado, Eduardo Barroso escreveu sobre o nível de vencimentos dos políticos e da impossibilidade que ele teria em aceitar qualquer eventual cargo no governo, pela exiguidade da retribuição que decerto o atiraria para a falência.
Mas antes do jantar de sábado e no meio de conversas cruzadas, veio-me ao ouvido o final do programa televisivo de José Hermano Saraiva, em que abordava a figura de Fernandes Thomaz, líder do executivo do nosso País após a revolução de 1822, que não quis receber qualquer compensação monetária pelo seu cargo, vindo a morrer … não dá mesmo para acreditar!, vindo a morrer…de fome, exactamente por não ter fortuna pessoal e não dizer a ninguém que estava sem dinheiro!
É realmente de pasmar, os mistérios que a vida tem e quais as respostas que devemos dar a perguntas que parecem simples: o que é a honra?, o que é o civismo?, de que forma se deve servir o país?
Nos tempos de hoje, não temos em Portugal pessoas que, sendo milionárias, tenham a capacidade, o desejo, ou a oportunidade de servir o País, em qualquer cargo político de topo. Não digo que fosse a solução ideal, dado que mesmo com excelente situação financeira, qualquer pessoa tem interesses particulares, económicos, sociais e políticos, que não a tornam só por esse facto mais isenta, nem melhor preparada, unicamente mais independente… financeiramente.
Então só temos duas categorias principais de pessoas para ocupar cargos públicos: os de carreira exclusivamente partidária, que nunca se destacaram em nada de especial e os (poucos) de maior craveira, que têm capacidades especiais e credibilidade pessoal a nível do país. Destes últimos, não temos ouvido, até agora, grandes queixas relativamente às remunerações para cargos governamentais.
Mas não teremos perdido muita gente de valor ao longo dos anos, e não estaremos a perder agora outros, que nem põem a hipótese de ocupar cargos públicos de topo, mesmo de forma transitória, por motivos financeiros?
O problema não tem solução a curto prazo. Quem decidiria sobre pagamentos diferenciados muito mais elevado a determinadas estrela políticas, aos “Figos” da governação? Como teria de ser sempre uma decisão casuística, com base num mero quadro legal que o permitisse, não se poderiam evitar eventuais arbitrariedades, implicando a possibilidade de arranjar gato por lebre.
Ficamos então como estamos, sem estrelas e sem grandes perspectivas, cada vez mais afastados dos políticos, esses eternos protagonistas de noticiários e manchetes.
Pobres protagonistas…
quinta-feira, outubro 09, 2003
Países à beira de um esgotamento
Com a tranquilidade que deriva da minha experiência, posso testemunhar que todos andam enganados sobre a riqueza dos Países, traduzida pelo simpático indicador conhecido pelo nome de Produto Interno Bruto ou simplesmente PIB (GDP).
Pois deixem-me que lhes diga, desde já, que eu estou deveras preocupado com os PIB´s de muitos países, mesmo da grande maioria deles, à escala do nosso planeta. E, reparem, não vou falar agora nem de valores absolutos nem de valores per capita, que até davam para uns paradoxos interessantíssimos. Vou abordar principalmente o crescimento da riqueza, ou seja, a percentagem de aumento anual do PIB.
Vejam só isto: parece que todos os países estão a crescer, a enriquecer. A China 8% ao ano, o Laos 3%, o Uruguai, 4%, a Espanha 2%, os EUA 4%, Portugal 0,01%, a Nova Zelândia 5%, os Camarões 3,5%. Mas, alguém acredita nisto? Quando há um País mais aflito, com “crescimento negativo”, a coisa é passageira, rapidamente volta ao normal e ás subidas anuais do PIB.
É um verdadeiro mistério. Sim, porque a economia tem aspectos insondáveis, em que até é preciso um pouco de coragem para meter o nariz. Olhamos para a África, pobre, delapidada, emigrada, e o que é que nos dizem as estatísticas? Adivinharam! O crescimento do PIB é positivo, com uma média muito redonda de 3 a 4% (!), acrescentando esses dados que será ainda necessário um maior aumento (!!) para que se diminua o atraso relativo desse continente (!!!).
E isto é só mais um exemplo que vale, com as devidas proporções, para todos os países e continentes com atrasos relativos no seu de crescimento. Claro que eu passo por cima do Iraque, Afeganistão, Yémen, Somália, Venezuela e outros, que ficam de fora destes comentários por uma simples questão de bom senso.
Ás vezes parece-me que alguma coisa me escapa neste permanente crescimento à escala mundial. Eu bem me ponho a pensar humildemente em que cada vez há mais reformados, maior número de jovens sem emprego e multidões de desempregados, muitos deles que há muito desistiram de arranjar trabalho. Por outro lado, nos países mais desfavorecidos, as produções agrícolas, por exemplo, sofrem grandes destruições por motivos climáticos e outros e o respectivo reflexo nas estatísticas não se descortina. Mas dizem-me que, no primeiro caso, os trabalhadores que restam no activo têm uma enorme produtividade e que, no segundo caso, os apoios internacionais compensam esses outros países mais atrasados, equilibrando-os minimamente. Estes argumentos são extremamente interessantes, não acham?
Mas há aqui uma ilusão qualquer, uma grande falácia inter-continental! Já repararam que se uns não trabalham por que não podem, outros porque não querem, ainda outros porque não precisam, como é que a riqueza nasce? São as fabricas a trabalhar em piloto automático, são as máquinas a substituir cada vez mais o homem? São as industrias tecnológicas e de inovação que marcam a diferença? Ah, então se é isso está explicado, não é? Mas, por exemplo, na Ásia toda é assim?
Estamos nitidamente a tender para uma sociedade em que uma pequena minoria tem que trabalhar para que a grande maioria faça ou o que bem lhe apeteça, no género “ agora é que vou ter tempo para ler e viajar” ou, pelo contrário, não faça nada, com um lamento de “e agora o que é que eu vou fazer, aos 39 anos?”.
Estou para ver é quando os chineses chegarem a este nível de desenvolvimento! Já pensaram o que serão algumas poucas dezenas de milhões (uma ínfima parte da sua população total), a “ler e a viajar”? Bom, haverá alguns países (de destino turístico) em sério risco de irem literalmente ao fundo; e que dizer das edições de bolso de livros ocidentais traduzidos para o chinês? Vão fazer-se muitas fortunas, só é preciso acertar com o enredo adequado!
Mas a evolução e o crescimento dos países é uma verdadeira caixinha de surpresas. Ainda não há muitas décadas atrás havia um grupo de países (China, Brasil, Índia, Japão, Austrália, Canadá) considerados como grandes potências num futuro que se pensava anterior ainda ao ano 2000. Está-se a ver o que aconteceu: exceptuando a China, que terá fôlego para isso daqui a várias décadas, os outros lá se vão aguentando, uma vezes melhor outras vezes pior, mas com os mais evoluídos a dispensarem completamente esse objectivo que terá que ser repensado mais cedo ou mais tarde.
Mas, o contrário já aconteceu com uma rapidez incrível. A União Soviética evaporou-se como o vodka, da noite para o dia, e a Rússia passou a desempenhar o papel de parente muito pobre do G-7.
E o que dizer dos Estados Unidos da América, a única superpotência em exercício, a terra dos Kennedy´s e da Marilyn, do clã Sinatra e da Ella Fitzgerald, de Estados tão diferentes como o Utah e a Califórnia, do basebol e do golfe, do futuro e dos futures and options. Pois esses EUA, têm mesmo de tomar cuidado, os problemas às vezes estão mesmo ao voltar da esquina, aparecem de repente e deixam estragos por muito tempo. Gastar muito mais do que se tem, anos e anos a fio, é demasiado arriscado mesmo para uma superpotência. Mas isto somos nós a falar, claro!?
A propósito, o mês passado fui à Dinamarca e é bem visível para toda a gente, que a qualidade de vida deles está centrada mais nas pessoas do que no país. Não querem ter bombas atómicas (que alguns países pobres teimam em obter), nem pretendem efectuar viagens à lua ou ao sistema solar (que continua a ser uma atracção dos que se julgam grandes). Países como a Dinamarca (e a Noruega e a Suécia), só pretendem continuar a ter um dos mais altos níveis de vida do mundo, sem apresentarem qualquer franja de verdadeira pobreza.
Mas enfim, voltar para casa é sempre agradável, neste Portugal em que todos os políticos agora dizem que as instituições funcionam. Se isso é verdade então eu devo ser o Bill Gates disfarçado de Comentador. Neste país que tem gestores de topo que não sabem o que é uma cobertura do risco de câmbio e que julgam que o yield é o nome de um desporto radical, desfrutamos o privilégio de observar tudo o que não funciona com um sorriso nos lábios, com aquela serena esperteza ou o amável desprezo de sabermos bem o que a casa gasta.
Com a tranquilidade que deriva da minha experiência, posso testemunhar que todos andam enganados sobre a riqueza dos Países, traduzida pelo simpático indicador conhecido pelo nome de Produto Interno Bruto ou simplesmente PIB (GDP).
Pois deixem-me que lhes diga, desde já, que eu estou deveras preocupado com os PIB´s de muitos países, mesmo da grande maioria deles, à escala do nosso planeta. E, reparem, não vou falar agora nem de valores absolutos nem de valores per capita, que até davam para uns paradoxos interessantíssimos. Vou abordar principalmente o crescimento da riqueza, ou seja, a percentagem de aumento anual do PIB.
Vejam só isto: parece que todos os países estão a crescer, a enriquecer. A China 8% ao ano, o Laos 3%, o Uruguai, 4%, a Espanha 2%, os EUA 4%, Portugal 0,01%, a Nova Zelândia 5%, os Camarões 3,5%. Mas, alguém acredita nisto? Quando há um País mais aflito, com “crescimento negativo”, a coisa é passageira, rapidamente volta ao normal e ás subidas anuais do PIB.
É um verdadeiro mistério. Sim, porque a economia tem aspectos insondáveis, em que até é preciso um pouco de coragem para meter o nariz. Olhamos para a África, pobre, delapidada, emigrada, e o que é que nos dizem as estatísticas? Adivinharam! O crescimento do PIB é positivo, com uma média muito redonda de 3 a 4% (!), acrescentando esses dados que será ainda necessário um maior aumento (!!) para que se diminua o atraso relativo desse continente (!!!).
E isto é só mais um exemplo que vale, com as devidas proporções, para todos os países e continentes com atrasos relativos no seu de crescimento. Claro que eu passo por cima do Iraque, Afeganistão, Yémen, Somália, Venezuela e outros, que ficam de fora destes comentários por uma simples questão de bom senso.
Ás vezes parece-me que alguma coisa me escapa neste permanente crescimento à escala mundial. Eu bem me ponho a pensar humildemente em que cada vez há mais reformados, maior número de jovens sem emprego e multidões de desempregados, muitos deles que há muito desistiram de arranjar trabalho. Por outro lado, nos países mais desfavorecidos, as produções agrícolas, por exemplo, sofrem grandes destruições por motivos climáticos e outros e o respectivo reflexo nas estatísticas não se descortina. Mas dizem-me que, no primeiro caso, os trabalhadores que restam no activo têm uma enorme produtividade e que, no segundo caso, os apoios internacionais compensam esses outros países mais atrasados, equilibrando-os minimamente. Estes argumentos são extremamente interessantes, não acham?
Mas há aqui uma ilusão qualquer, uma grande falácia inter-continental! Já repararam que se uns não trabalham por que não podem, outros porque não querem, ainda outros porque não precisam, como é que a riqueza nasce? São as fabricas a trabalhar em piloto automático, são as máquinas a substituir cada vez mais o homem? São as industrias tecnológicas e de inovação que marcam a diferença? Ah, então se é isso está explicado, não é? Mas, por exemplo, na Ásia toda é assim?
Estamos nitidamente a tender para uma sociedade em que uma pequena minoria tem que trabalhar para que a grande maioria faça ou o que bem lhe apeteça, no género “ agora é que vou ter tempo para ler e viajar” ou, pelo contrário, não faça nada, com um lamento de “e agora o que é que eu vou fazer, aos 39 anos?”.
Estou para ver é quando os chineses chegarem a este nível de desenvolvimento! Já pensaram o que serão algumas poucas dezenas de milhões (uma ínfima parte da sua população total), a “ler e a viajar”? Bom, haverá alguns países (de destino turístico) em sério risco de irem literalmente ao fundo; e que dizer das edições de bolso de livros ocidentais traduzidos para o chinês? Vão fazer-se muitas fortunas, só é preciso acertar com o enredo adequado!
Mas a evolução e o crescimento dos países é uma verdadeira caixinha de surpresas. Ainda não há muitas décadas atrás havia um grupo de países (China, Brasil, Índia, Japão, Austrália, Canadá) considerados como grandes potências num futuro que se pensava anterior ainda ao ano 2000. Está-se a ver o que aconteceu: exceptuando a China, que terá fôlego para isso daqui a várias décadas, os outros lá se vão aguentando, uma vezes melhor outras vezes pior, mas com os mais evoluídos a dispensarem completamente esse objectivo que terá que ser repensado mais cedo ou mais tarde.
Mas, o contrário já aconteceu com uma rapidez incrível. A União Soviética evaporou-se como o vodka, da noite para o dia, e a Rússia passou a desempenhar o papel de parente muito pobre do G-7.
E o que dizer dos Estados Unidos da América, a única superpotência em exercício, a terra dos Kennedy´s e da Marilyn, do clã Sinatra e da Ella Fitzgerald, de Estados tão diferentes como o Utah e a Califórnia, do basebol e do golfe, do futuro e dos futures and options. Pois esses EUA, têm mesmo de tomar cuidado, os problemas às vezes estão mesmo ao voltar da esquina, aparecem de repente e deixam estragos por muito tempo. Gastar muito mais do que se tem, anos e anos a fio, é demasiado arriscado mesmo para uma superpotência. Mas isto somos nós a falar, claro!?
A propósito, o mês passado fui à Dinamarca e é bem visível para toda a gente, que a qualidade de vida deles está centrada mais nas pessoas do que no país. Não querem ter bombas atómicas (que alguns países pobres teimam em obter), nem pretendem efectuar viagens à lua ou ao sistema solar (que continua a ser uma atracção dos que se julgam grandes). Países como a Dinamarca (e a Noruega e a Suécia), só pretendem continuar a ter um dos mais altos níveis de vida do mundo, sem apresentarem qualquer franja de verdadeira pobreza.
Mas enfim, voltar para casa é sempre agradável, neste Portugal em que todos os políticos agora dizem que as instituições funcionam. Se isso é verdade então eu devo ser o Bill Gates disfarçado de Comentador. Neste país que tem gestores de topo que não sabem o que é uma cobertura do risco de câmbio e que julgam que o yield é o nome de um desporto radical, desfrutamos o privilégio de observar tudo o que não funciona com um sorriso nos lábios, com aquela serena esperteza ou o amável desprezo de sabermos bem o que a casa gasta.
quinta-feira, outubro 02, 2003
Uma Teoria Estonteante
Como sabem, sou uma pessoa prática. Para mim, as teorias mais complexas e devastadoras devem ser apresentadas de forma simples, clara e aberta. O cenário que vou apresentar a seguir, embora pouco ortodoxo, tem subjacente as técnicas mais adequadas e o bom senso mais elementar. Por isso mesmo, para além de tomarem as devidas precauções, podem levar este tom coloquial à letra e, no final, para conversarmos um pouco, se assim o entenderem.
Ah! E não se admirem de ir contra o que eu próprio escrevi na crónica anterior (…”importante não é de forma nenhuma tentar saber ou descobrir o que vai acontecer no futuro”)! É que há casos em que devemos abrir uma excepção, e avançar com as nossas opiniões, as quais embora sendo meras hipóteses, podem fazer-nos pensar, o que já é uma boa desculpa.
Comecemos, então. Olhando para o USD, cuja evolução irá influenciar grandemente as bolsas em todo o mundo, vamos observar uma situação muito curiosa: a moeda norte-americana passou a ser, após 1944 (ano da criação do sistema de Bretton Woods), a mais utilizada nas transacções internacionais e a mais importante a nível mundial mas, ao mesmo tempo, não tem parado de se desvalorizar progressivamente. Com efeito, analisando as últimas décadas, o US Dollar Index (DX) tem sofrido inúmeras fortes variações, a mais importante das quais foi a descida de 164,7 em 25-02-85 para 78,3 em 09-01-92 (menos 53%),
Em relação ao Marco (DM/$) e ao iene (USD/JPY), de 1970 até 1995, a desvalorização do USD foi de 62% e 72%, respectivamente. De destacar, o período de pouco mais de 2 anos e meio, entre 1985 e finais de 1987, em que houve uma descida do USD de 54%, tanto em relação ao marco como em relação ao iene.
E o USD passou por isto tudo para poder continuar a desempenhar o seu papel de protagonista na cena mundial, caindo muitas vezes e depois levantando-se cada vez mais trôpego e curvado. Dá que pensar!
Só que estamos na altura de, no âmbito da sua actual tendência descendente de médio/longo prazo, perspectivarmos um provável reforço da duração e do nível da correspondente descida, tentando “ver”, no denso nevoeiro, o que “tem” de acontecer, mesmo que pareça um cenário exagerado ou essa eventualidade se nos afigure irrealista.
E é precisamente nesse contexto que alguns economistas internacionais estão a ponderar qual a percentagem necessária de desvalorização do USD (contada a partir de agora!), relativamente às moedas (euro e iene) dos seus maiores parceiros comerciais. E isto para não haver uma desgraça financeira global, motivada pelo aumento crescentemente acelerado do défice das contas externas dos EUA, que já conta com vários triliões no seu saldo.
Realmente, as previsões daqueles técnicos variam, mas praticamente nenhum deles tem dúvidas de que uma descida bastante pronunciada é infalível, com a posição dos optimistas a apontar para cerca de 15-20% de descida do USD, contra os 50% de desvalorização que os mais pessimistas admitem. Claro que esta variação deveria ser o mais lenta possível (dois anos, no mínimo) senão o castelo de cartas poderia cair e o problema tornar-se ainda maior.
Ora, fazendo as contas, o que é que isto dá? Com uma descida intermédia do USD de 30%, relativamente ao euro e ao iene, e considerando por simplificação uma desvalorização de 10% em relação às restantes moedas do cabaz, chegam-se aos seguintes valores: o DX passaria para 71, o EUR/USD para 1,64 e o USD/JPY para 78.
Seriam estes os objectivos a atingir… prevendo um processo controlado e não linear, até para não haver rupturas ou recessão a nível mundial! Se ficaram sem palavras, sempre vos posso dizer que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção, e que economistas do Goldman Sachs e do Deutsche Bank estão entre os que pensam que uma desvalorização do USD entre 40-50% é a mais indicada para reduzir o défice externo dos EUA … para 3,5% do PIB, lá para 2007!!!
O Jim Sinclair apresentou há tempos uma análise do DX, em que, com a quebra do neckline do H&S gigante, ele calculava um target de 72 para esse índice. É simples e brutal. Penso que nem ele acreditava muito nisso, nessa altura. E eu também posso ainda não acreditar o suficiente nesta teoria, embora a ache cada vez mais verosímil, e aquele valor perfeitamente aceitável para um destes próximos anos…
Para não me esquecer, tenho esse número (72) pregado no meu quadro de trabalho, não tanto como um objectivo futuro, mas como um referencial dos tempos complexos em que poderemos estar todos envolvidos.
Eu posso não acreditar muito, mas que existe uma boa probabilidade, lá isso existe…
Como sabem, sou uma pessoa prática. Para mim, as teorias mais complexas e devastadoras devem ser apresentadas de forma simples, clara e aberta. O cenário que vou apresentar a seguir, embora pouco ortodoxo, tem subjacente as técnicas mais adequadas e o bom senso mais elementar. Por isso mesmo, para além de tomarem as devidas precauções, podem levar este tom coloquial à letra e, no final, para conversarmos um pouco, se assim o entenderem.
Ah! E não se admirem de ir contra o que eu próprio escrevi na crónica anterior (…”importante não é de forma nenhuma tentar saber ou descobrir o que vai acontecer no futuro”)! É que há casos em que devemos abrir uma excepção, e avançar com as nossas opiniões, as quais embora sendo meras hipóteses, podem fazer-nos pensar, o que já é uma boa desculpa.
Comecemos, então. Olhando para o USD, cuja evolução irá influenciar grandemente as bolsas em todo o mundo, vamos observar uma situação muito curiosa: a moeda norte-americana passou a ser, após 1944 (ano da criação do sistema de Bretton Woods), a mais utilizada nas transacções internacionais e a mais importante a nível mundial mas, ao mesmo tempo, não tem parado de se desvalorizar progressivamente. Com efeito, analisando as últimas décadas, o US Dollar Index (DX) tem sofrido inúmeras fortes variações, a mais importante das quais foi a descida de 164,7 em 25-02-85 para 78,3 em 09-01-92 (menos 53%),
Em relação ao Marco (DM/$) e ao iene (USD/JPY), de 1970 até 1995, a desvalorização do USD foi de 62% e 72%, respectivamente. De destacar, o período de pouco mais de 2 anos e meio, entre 1985 e finais de 1987, em que houve uma descida do USD de 54%, tanto em relação ao marco como em relação ao iene.
E o USD passou por isto tudo para poder continuar a desempenhar o seu papel de protagonista na cena mundial, caindo muitas vezes e depois levantando-se cada vez mais trôpego e curvado. Dá que pensar!
Só que estamos na altura de, no âmbito da sua actual tendência descendente de médio/longo prazo, perspectivarmos um provável reforço da duração e do nível da correspondente descida, tentando “ver”, no denso nevoeiro, o que “tem” de acontecer, mesmo que pareça um cenário exagerado ou essa eventualidade se nos afigure irrealista.
E é precisamente nesse contexto que alguns economistas internacionais estão a ponderar qual a percentagem necessária de desvalorização do USD (contada a partir de agora!), relativamente às moedas (euro e iene) dos seus maiores parceiros comerciais. E isto para não haver uma desgraça financeira global, motivada pelo aumento crescentemente acelerado do défice das contas externas dos EUA, que já conta com vários triliões no seu saldo.
Realmente, as previsões daqueles técnicos variam, mas praticamente nenhum deles tem dúvidas de que uma descida bastante pronunciada é infalível, com a posição dos optimistas a apontar para cerca de 15-20% de descida do USD, contra os 50% de desvalorização que os mais pessimistas admitem. Claro que esta variação deveria ser o mais lenta possível (dois anos, no mínimo) senão o castelo de cartas poderia cair e o problema tornar-se ainda maior.
Ora, fazendo as contas, o que é que isto dá? Com uma descida intermédia do USD de 30%, relativamente ao euro e ao iene, e considerando por simplificação uma desvalorização de 10% em relação às restantes moedas do cabaz, chegam-se aos seguintes valores: o DX passaria para 71, o EUR/USD para 1,64 e o USD/JPY para 78.
Seriam estes os objectivos a atingir… prevendo um processo controlado e não linear, até para não haver rupturas ou recessão a nível mundial! Se ficaram sem palavras, sempre vos posso dizer que a realidade ultrapassa muitas vezes a ficção, e que economistas do Goldman Sachs e do Deutsche Bank estão entre os que pensam que uma desvalorização do USD entre 40-50% é a mais indicada para reduzir o défice externo dos EUA … para 3,5% do PIB, lá para 2007!!!
O Jim Sinclair apresentou há tempos uma análise do DX, em que, com a quebra do neckline do H&S gigante, ele calculava um target de 72 para esse índice. É simples e brutal. Penso que nem ele acreditava muito nisso, nessa altura. E eu também posso ainda não acreditar o suficiente nesta teoria, embora a ache cada vez mais verosímil, e aquele valor perfeitamente aceitável para um destes próximos anos…
Para não me esquecer, tenho esse número (72) pregado no meu quadro de trabalho, não tanto como um objectivo futuro, mas como um referencial dos tempos complexos em que poderemos estar todos envolvidos.
Eu posso não acreditar muito, mas que existe uma boa probabilidade, lá isso existe…
segunda-feira, setembro 22, 2003
Nível de vida (3)
Baixos salários ainda são importantes
Devido a diversas situações de fecho de empresas, pus-me a pensar na actual situação dos nossos sectores de têxteis e de calçado. As dificuldades na produtividade, no avanço tecnológico e nas economias de escala, são três factores, para além de outros, que tornam problemática a sua modernização. No entanto, a concorrência dos países asiáticos, baseada em salários baixíssimos, é o factor mais negativo de todos.
Com este panorama, na Europa, as empresas de maior dimensão estão a deslocalizar-se ou em vias de o fazer, para países como Marrocos, Roménia e Bulgária, sempre à procura de baixos salários.
Neste ponto, é muito interessante relembrar uma das grandes expectativas de grandes economistas, no campo da competitividade, os quais, nas décadas de 80 e 90 (e mesmo antes), acreditavam nas seguintes tendências: (1) gradual diminuição da diferença de salários entre os países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento; (2) redução muito sensível do peso do factor mão-de-obra nos custos de produção pela via do esperado grande aumento do investimento tecnológico; (3) os países de baixos salários do Extremo Oriente, deixariam de ser uma ameaça competitiva, tendo que se preocupar com a qualidade, design, etc.
Como o engano foi grande! Não só nos têxteis, mas na generalidade dos sectores, os custos de pessoal são o factor decisivo, mesmo quando estão em causa trabalhadores muito qualificados (como é o caso da Índia no suporte informático a grandes empresas dos EUA).
Baixos salários ainda são importantes
Devido a diversas situações de fecho de empresas, pus-me a pensar na actual situação dos nossos sectores de têxteis e de calçado. As dificuldades na produtividade, no avanço tecnológico e nas economias de escala, são três factores, para além de outros, que tornam problemática a sua modernização. No entanto, a concorrência dos países asiáticos, baseada em salários baixíssimos, é o factor mais negativo de todos.
Com este panorama, na Europa, as empresas de maior dimensão estão a deslocalizar-se ou em vias de o fazer, para países como Marrocos, Roménia e Bulgária, sempre à procura de baixos salários.
Neste ponto, é muito interessante relembrar uma das grandes expectativas de grandes economistas, no campo da competitividade, os quais, nas décadas de 80 e 90 (e mesmo antes), acreditavam nas seguintes tendências: (1) gradual diminuição da diferença de salários entre os países desenvolvidos e em vias de desenvolvimento; (2) redução muito sensível do peso do factor mão-de-obra nos custos de produção pela via do esperado grande aumento do investimento tecnológico; (3) os países de baixos salários do Extremo Oriente, deixariam de ser uma ameaça competitiva, tendo que se preocupar com a qualidade, design, etc.
Como o engano foi grande! Não só nos têxteis, mas na generalidade dos sectores, os custos de pessoal são o factor decisivo, mesmo quando estão em causa trabalhadores muito qualificados (como é o caso da Índia no suporte informático a grandes empresas dos EUA).
terça-feira, setembro 16, 2003
Milhões!...
Ao voltar de férias, estou a actualizar as notícias e informações sobre os mercados, seleccionando as que, na minha opinião, merecem mais atenção. Parece, eu digo parece, que a eterna luta Bulls vs Bear está a ser ganha de forma cada vez mais clara pelos primeiros, independentemente de se manterem os biliões de dólares de dívida da grande maioria das big caps mundiais e dos triliões de défice comercial dos E.U.A, aliás sempre em crescimento acelerado.
Não há dúvida que estamos numa época em que notícias de biliões e triliões nos passam pelos olhos (através do monitor do PC, bem entendido!), a uma velocidade diabólica, e já ninguém liga a isso…
Também parece que a retoma começa a despontar no horizonte, isto se a neblina matinal não me estiver a enganar. Se for mesmo verdade, pode vir com uma força inesperada, fazendo com que todas as bolhas sejam reactivadas e fiquem cada vez mais redondas. Será que estamos só a meio da subida?
Mas no meio dos “montes” de informação, também me passou pelos olhos uma pequena história sobre o nosso conhecido Dick Grasso, personagem simpática para todo e qualquer visitante VIP da New York Stock Exchange, de que é o respectivo Chairman.
Pois o Sr. Grasso “levou para casa” recentemente, em remunerações especiais e incentivos, a engraçada quantia de 140 milhões de dólares (130 milhões de euros ou 26 milhões de contos, desculpem lá, para ainda melhor percepção). Logo por azar, o Presidente da SEC, instituição que é uma espécie de Inspecção-geral dos Mercados nos EUA, quer saber ao tostão como é que foi calculado aquele valor. Veremos no que dá!
Triliões, bolhas, retoma, Grasso, dólar, EDP, Outubro… fico a pensar nisto tudo e em muitas outras coisas, esforçando-me por relacionar os dados, tentando chegar perto da chave deste enorme puzzle.
Continuo a pensar e pasmo: 3 ou 4 triliões de défice comercial acumulado dos states e o mercado até dá um prémio subindo como sobe; centenas de biliões de dívidas de enormes empresas que esperarão outra oportunidade para limpar o passivo; muitos milhões de dólares para CEO´s à moda yankee, os quais têm como maior objectivo bater as estimativas definidas por eles próprios. Enfim, seja o que for que o futuro nos reserve, a situação está longe de ser brilhante!
Ao voltar de férias, estou a actualizar as notícias e informações sobre os mercados, seleccionando as que, na minha opinião, merecem mais atenção. Parece, eu digo parece, que a eterna luta Bulls vs Bear está a ser ganha de forma cada vez mais clara pelos primeiros, independentemente de se manterem os biliões de dólares de dívida da grande maioria das big caps mundiais e dos triliões de défice comercial dos E.U.A, aliás sempre em crescimento acelerado.
Não há dúvida que estamos numa época em que notícias de biliões e triliões nos passam pelos olhos (através do monitor do PC, bem entendido!), a uma velocidade diabólica, e já ninguém liga a isso…
Também parece que a retoma começa a despontar no horizonte, isto se a neblina matinal não me estiver a enganar. Se for mesmo verdade, pode vir com uma força inesperada, fazendo com que todas as bolhas sejam reactivadas e fiquem cada vez mais redondas. Será que estamos só a meio da subida?
Mas no meio dos “montes” de informação, também me passou pelos olhos uma pequena história sobre o nosso conhecido Dick Grasso, personagem simpática para todo e qualquer visitante VIP da New York Stock Exchange, de que é o respectivo Chairman.
Pois o Sr. Grasso “levou para casa” recentemente, em remunerações especiais e incentivos, a engraçada quantia de 140 milhões de dólares (130 milhões de euros ou 26 milhões de contos, desculpem lá, para ainda melhor percepção). Logo por azar, o Presidente da SEC, instituição que é uma espécie de Inspecção-geral dos Mercados nos EUA, quer saber ao tostão como é que foi calculado aquele valor. Veremos no que dá!
Triliões, bolhas, retoma, Grasso, dólar, EDP, Outubro… fico a pensar nisto tudo e em muitas outras coisas, esforçando-me por relacionar os dados, tentando chegar perto da chave deste enorme puzzle.
Continuo a pensar e pasmo: 3 ou 4 triliões de défice comercial acumulado dos states e o mercado até dá um prémio subindo como sobe; centenas de biliões de dívidas de enormes empresas que esperarão outra oportunidade para limpar o passivo; muitos milhões de dólares para CEO´s à moda yankee, os quais têm como maior objectivo bater as estimativas definidas por eles próprios. Enfim, seja o que for que o futuro nos reserve, a situação está longe de ser brilhante!
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